domingo, 13 de maio de 2012

Like freckles in your arms


(É tempo de escrever coisas que provavelmente ninguém mais vai entender ou mesmo ler.)

Há alguns dias, não muito tempo depois de contestar diariamente um arrependimento que me adoecia as ideias, tive a oportunidade de dar algumas voltas de carro, na busca de qualquer lugar afastado de onde fosse possível ver o céu. Era a ocasião de aparecer a maior lua do ano, a "supermoon", que veio não muito maior que a lua normal. As estrelas não contiveram o brilho também intenso, e acabamos por ver um céu bastante inspirado.

Estrelas multiplicam-se no escuro. Diz-se que, em sua maior visibilidade e clareza, são um grande guia de localização, porque sua disposição (ainda que em constante movimento) está lá como complicadas indicações de direção, e suspeito que se formos longe o suficiente das luzes da cidade, podemos ver até a via láctea (“...deve ser uma visão e tanto”). É quase como no livro de rabiscos de um maníaco, cheio de itens coloridos que não têm nenhuma relação aparente entre si, nenhum esquema claramente distinguível. De qualquer forma, por mais bonito que fosse, não soube dizer, no entanto, qual era o propósito de imaginar e dar nomes a conjuntos de estrelas. Fui então ver um livro ou outro (“A Walk Through the Southern Sky” foi um princípio bastante elucidativo), e dizia lá que constelações são mapas disfarçados de desenhos e poesia grega antiga, com odes a ninfas e caçadores correndo atrás de Afrodite*. Em outras palavras, três pontos brilhantes em linha reta, outros quatro pontos arqueados, mais um punhado espalhado, e pronto: lá está a constelação de Sagitário, nascendo ao leste, enquanto Órion se põe ao oeste, fugindo do centauro que protege Hércules. O cruzeiro do sul debaixo do Centauro, por outro lado, não tem nenhuma lenda a justificá-lo.

O mais fascinante disso é que nenhuma das constelações é óbvia. Até o cruzeiro do sul é uma cruz bastante questionável, mesmo porque poderia ser qualquer outra coisa pelo padrão dos outros desenhos. Claro, a ideia de imaginar desenhos ao redor das estrelas foi só um método muito inteligente para identificar padrões em pontos bastante esparsos aleatoriamente, então tudo isso é uma questão mais secundária. Ainda assim, é bem aí nesse ponto secundário — porque às vezes o secundário é mais divertido que todo o resto — onde começa esse divertido exercício de associar qualquer nova ideia às estrelas, e permitimo-nos a abandonar os mapas astronômicos que já estão aí a tanto tempo. Imaginemos livremente o que terá o céu a nos dizer nessa ou naquela noite, e as metáforas serão em mais número que as próprias estrelas. Veja, gosto de pensar, para começar, que essa coisa transitória e fugidia do lento movimento das estrelhas ao longo dos meses é uma metade de nossas vidas, sendo a outra o eterno e o imútavel, posto que as estrelas sempre voltam aonde já estiveram. Capisci?

Ou: podemos inventar sozinhos um mapa de estrelas, a título de nos orientar com sinais não visiveis a olho nu, e teríamos, então, nossa própria coleção de constelações como memorabilia. Cada mês, uma recordação: Abril, Eros e Dionísio; Maio, Thanatos e Psiquê. Ou quem sabe até algo menos pretensioso, e daríamos a cada trio de estrela uma música do Beirut, ou uma canção em inglês para cada plêiade, e as maiores teriam nomes em alemão: “Sehnsucht”, “Abwesenheit”, “Schweigsamkeit”, “Die Nacht”, "Herbstabend", ou sei lá mais o quê. A única exceção seriam aquelas que estiverem dispostas no céu como as pintas de nossos braços, que terão nossos nomes de verdade.

De qualquer forma, há de ser algo bastante interessante: nossa orientação por um tracejado de linhas imaginárias, livros de poesia, e promessas — cumpridas ou não. Suerte!
  
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*Um dos muitos sonetos de Camões, achado ao acaso:

Deixa, Apolo, o correr tão apressado,
Não sigas essa Ninfa tão ufano,
Não te leva o Amor, leva-te o engano
Com sombras de algum bem a mal dobrado.

E quando seja Amor será forçado,
E se forçado for, será teu dano:
Um parecer não queiras mais que humano,
Em um Silvestre adorno ver tornado.

Não percas por um vão contentamento
A vista que te faz viver contente:
Modera em teu favor o pensamento.

Porque menos mal é tendo-a presente,
Sofrer sua crueza, e teu tormento,
Que sentir sua ausência eternamente.

“Up a tree in the park at night with a Hedgehog”, últimas linhas:

"Oh, look at that.
Stars.
I didn't notice them before.
It's funny how people always strive for the most hyperbolic, poetical and grandiose terms when trying to describe stars and how far away they are. It's all vast empty reaches of space and aeons of light-years when all anyone really needs to say is they're a long way away.
A long way away is a long way.
But they're not really a long way away either.
They're a long time ago. They don't exist any more. Some of them went boom before Adam was a boy. What we're looking at are the memories of stars.
 But they're beautiful just the same."


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* Are there patterns in our skies, are patters only in our eyes?

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Ah, vida.

"Herbsttag", de Ranier Maria Rilke*

Senhor: agora é tempo. O verão passou lento;
repousa tuas sombras sobre as horas de sol
e pelos corredores deixa soprar livre o vento.

Ordene que estejam cheias as últimas frutas
dê a elas mais dois dias sulistas
com afinco pressione-as
e cace a doçura restante do mais pesado vinho.

Quem agora não tiver uma casa, não mais a construirá;
Quem agora estiver sozinho, assim enfim permanecerá,
crescerá, há de ler, e longas cartas escrever
e vagará por avenidas aqui e lá
afoito, quando as folhas impelirem-se.

--

Diz-se que te fazer pequeno de nada serve ao mundo
Mas teu tamanho é descontado de cada desacerto.
És pequena jóia sem valor, quebrado e sem conserto
errado, inexato, contestável, parvo, imundo.

Talvez (na falta de comparação melhor)
é como os cartões postais nunca enviados
que tornaram-se contrariados
marca-páginas.

Ai, vida. E agora,
o que Drummond faria?

--

"Wer spricht von Siegen? Übersteh'n ist alles!"
http://mundoderascunhos.blogspot.com.br/2012/04/um-medo-peremptorio-do-ego.html

*
Original encontrado aqui: http://www.gutenberg.org/dirs/3/4/5/2/34521/34521-h/34521-h.htm
Tradução minha e do de.thefreedictionary.com

Es de dudar si el dilema

Como distração
sentei-me com um velho amigo:
Equilibrando livros na cabeça
debatemos os limites del capitalismo
("hay em el sistema capitalista
una tendencia inherente hacia la autodestruicción
es de dudar si el dilema (...)
puede ser neutralizado de esta manera").
Ignoramos, já bastante cansados, nossa incultura
sobre complicadas teorias econômicas.
Apenas perguntamo-nos lendo das páginas
em voz alta frases altivas:
¿Acharemos
algum dia
figuras de linguagem definitivas
que substituirão concisas
os percalços de nossas vidas inteiras?
Somos apenas grandessíssimos filhos-da-puta;
sabemos quanto valem nossas besteiras.
Quem dera fosse nossa existência uma luta
Quem dera tivéssemos uma guerra das antigas.



quarta-feira, 18 de abril de 2012

A ausência em metáforas kitsch

Domingo fui ao parque
as crianças brincavam aos montes
corriam ao redor do lago, da fonte
e os patos, despreocupados.
No gramado logo ao lado
(já era quase noite)
debatiam as pessoas em roda
sobre o porquê de passarem
e tão logo já desaparecerem
os cometas, essas quase-estrelas,
que devem ser metáfora kitsch para alguma coisa,
(sugeriu alguém de camiseta colorida)
mas o céu não deu mais nada a entender.
Pensamos bem e concluímos sem dizer
que, fosse o que fosse aquilo diante de nós,
sentiremos profundamente sua ausência
se ousar não voltar
para que em brados a recebamos;
contaremos os dias sem dar certeza
de que ao cabo de mais sete dias
estará tudo lá como deixamos.
Outro camarada acendeu um cigarro.
Ele não soube dizer se, na verdade,
não era aquilo alguma outra coisa
que podia eventualmente tê-lo ocorrido,
talvez um satélite ou quiçá um meteorito.
Enfim lamentamos como tudo é tão fugaz
— se ao menos nos deixassem algo escrito!

(O que começou como devaneio
tornou-se disfarçadamente frequente desalento
que volta e meia surpreende-me desatento.
Há uma boa razão para tocar o violoncelo
e é uma pena que não tenhamos tudo agora
por maior que seja a fantasia de qualquer tentativa.
Serei claro: meu lirismo namorador, político
raquítico e sifilítico lastima sinceramente
essa ausência que ameaça tornar-se definitiva.)
--

Ausências são sempre superlativas:
http://mundoderascunhos.blogspot.com.br/2012/04/abwesenheit.html

segunda-feira, 9 de abril de 2012

É preciso ir bastante alto para ver além dos limites de Blumenau


No rádio do carro em que estávamos (em algum ponto incerto entre Jaraguá do Sul e Blumenau) tocavam músicas da minha bandinha canadense favorita, cujas letras eu conhecia de cor. Perguntei-me então (bastante tolo) o porquê desses caras não terem nascido em Santa Catarina também, e percebi que ere essa a deixa do momento para passear nas minhas misconceptions de mundo.

Cruzávamos o nosso pequeno enclave gringo-brasileiro, perdido no meio do vale, bem aqui onde não é possível de ver nada além dos morros. Neste lugar abrem-se estradas por entre altos montes de terra (cuja altura não pôde ser estimada por André), e amontoados de casinhas junto a largos galpões brotam conforme surgem terras mais planas.

Falo sobre as colônias catarinenses, que (segundo consta em um dos livros de Darcy Ribeiro) são filhas da inexplicável persistência dos imigrantes — algo só compreensível se pensarmos na angústia e penúria pela qual paralelamente passava a terra-mãe de outrora. (“A Europa já foi mais legal”, quem sabe não devem ter pensado.)

Por isso imagino clareiras sendo abertas a duras penas, somente para criar uma nova ideia de pátria bem no meio do mato, que chamariam ora de Brasil e ora de Brasilien. Bem aqui, onde mais tarde estaríamos confusos e divididos entre a tela de televisões (ou computadores) e nossa cara no espelho, gerações pareciam decidir involuntariamente o destino do estado em relação ao resto do país. Era muito mais importante saber em que pé estavam os brasileiros do lado de lá, e até que ponto podia-se continuar com velhos costumes. Diria até que nada do que nos preocupa agora era visto lá como problema, porque talvez se soubesse muito bem quem era quem, e o porquê de aqui estarmos sequer era mistério. As colônias de Santa Catarina eram irredutíveis, jamais um limbo dos estados ao redor.

De qualquer forma, eu ocupava o lugar do passageiro, e enquanto essa historinha toda passava por minha cabeça, decidíamos qual entrada da próxima cidade tomaríamos. Ocorreu-me então que não tenho muitos retratos de ancestrais na parede de casa. Mas voltei a distrair-me com as indústrias, porque depois de mais de uma hora rodando com o carro, deparamo-nos com enormes silos de arroz que uma das cidadezinhas abriga, e passei a observar o pessoal que ocupava os lados da rodovia. Perdi a conta de quantas bicicletas vi passar por bairros inteiros longe de tudo. Corríamos sob o calor do sol e embaixo da sombra de igrejas esparsas; estávamos definitivamente atravessando o vale, no interior de Santa Catarina.

Mas essa questão dos colonos é persistente, e acabo ficando nela. Arrisco-me a pensar que parte desse pessoal tornou-se um rude empresariado novo-rico, mesmo que simpático vez ou outra. Mas por que eram assim? O que fazia este pessoal depois de 1900? Depois que esqueceram de que o brasileirismo é inventado, tornaram-se brasileiros de verdade? Ser daqui é ser de lugar nenhum e de todos os lugares ao mesmo tempo? E enquanto o país descobria-se em 1922, época em que cariocas, mineiros e paulistas tomavam navios para qualquer lugar no estrangeiro afoitos em busca da antropofagia, o que se fazia entre o litoral e o oeste catarinense? Será que Vitor Meirelles ou Cruz e Souza estavam distantes demais? Parece que as primeiras incursões artísticas dos ex-colonos foram tão tímidas que ainda não se ouve nada a respeito, e os segredos de nossos avôs estão começando a ser escritos aos poucos, inspirados por autores reclusos e aspirantes a Lindolf Bell. Os novos-ricos não ligam, mas pode-se ver os primeiros suspiros poéticos abrigados nos túneis que há por debaixo das ruas blumenauenses — eles são tanto lenda quanto como distração no caminho para o shopping-center.

Está aí a resposta: distração. Isso, ou nosso grande problema é mesmo o amor próprio.

A falta de amor-próprio, na verdade, parece ser uma sugestão bastante conveniente. Isso significa que, por um lado, não temos voz própria porque temos vergonha do som dessa voz, e isso explicaria também o gosto de fluoxetina com ansiolíticos que o rio Itajaí-Açu deve ter.

Ainda assim, também é bom-senso sugerir que desconheço os autores daqui, e não saberia dizer o nome de mais de dez músicos, dez atores ou dez artistas plásticos. Então, por outro lado, quem sabe sou eu que estou a condenar meu próprio mundinho inventado, e só não sei mais discernir o que presta na televisão, achando que isso é reflexo real do que se passa lá fora. Paradoxalmente, o amor-próprio talvez falte mesmo a mim, e não ao resto das pessoas, que não se importam com a falta uma voz forte que diga de onde vem. "Vens de onde, gajo? Deve ser de Blumenau, com toda essa pompa, mas sem nada para dizer. Desliga a televisão e escreve logo teu livro."

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Amor-próprio — exacerbação exagerada e pleonástica, tom de habitantes de cidades inventadas, ou bom-senso de viver sozinho. No-one has it all em:

quarta-feira, 28 de março de 2012

‘Ficar sem palavras’ em três tempos (pt. 1)

O., nascido em terras tupiniquins (mas português por excelência), de uns vinte e poucos anos, visitou-nos outro dia durante o expediente. Alto, moreno, de cabelos crespos, camisa listrada e sapatos muito rasgados, era um sujeito peculiar o suficiente para que eu achasse difícil de dizer o que me chamava mais a atenção. Claramente me soava estranho o sotaque, e também achei interessante a sua dificuldade em conter os gestos, porque ele expressava-se de forma que sempre sabíamos logo de cara o que lhe interessava e o que lhe era indiferente. Mas era principalmente peculiar como ele se perdia nas palavras.

Antes, um pouco mais de contexto: O. é antropólogo formado na França, e apareceu ali no meu “nine to five” diário com o pretexto de entrevistar o teuto-brasileiro mais importante daquelas bandas. Depois de um par de ligações, apareceu ofegante, simpático e atrasado, aceitou o copo de água antes de começar, e aí então sacou o gravador com o bloco de notas.

Depois de devidamente apresentados um ao outro, sentaram-se tête-à-tête à mesa diante de mim. O. nos olhou um pouco afoito e disse: “Bom, obrigado por me receber, peço desculpas pelo atraso. Acho que podemos começar, não?”

Ok, vá em frente, gajo. Estamos todos curiosos para ver o que tens aí.

O. notou nosso assentimento e buscou no ar o que deveria dizer. Seu entrevistado me olhou um pouco, e de repente veio a primeira pergunta: “o que significa, afinal, ser um imigrante alemão em Santa Catarina?” Recebo um olhar meio decepcionado do outro lado da mesa. Não era uma pergunta nova para o saxão, que revistou memórias e pôs-se a elaborar um pouco desconcertado vagas elucubrações acerca da sua vida recente por aqui.

Nosso visitante ouviu desatento, e folheava enquanto isso seu caderninho. Olhou o gravador e tornou a fitar-nos. Hesitante, persistiu no silêncio por alguns momentos, mas então subitamente pensou em alguma coisa e perguntou: “Mas... como você veio parar aqui?”

Novamente noto que não era o tipo de pergunta esperada. Nós estávamos acostumados com pessoas que não têm tempo a perder, como os bons e velhos engravatados munidos de jargão, briefings, estratégias e segundas intenções. Ficamos atordoados de ver alguém naquela salinha que precisava elaborar com calma cada frase. E, veja só, as próximas perguntas não foram diferentes: algo genérico, algo de senso-comum, algo aparentemente pouco produtivo. Não suficiente, O. sempre reagia lacônico às respostas, cheio de monossílabas, e às vezes também fazia anotações. Digamos, vi-o escrever um par de frases e palavras soltas. E isso foi tudo.

Depois de meia-hora, O. resolveu que já era o bastante. Levantou-se, agradeceu, cumprimentou-nos novamente e saiu. Fui levá-lo até a porta, e no caminho questionei-o rapidamente sobre o tema da pesquisa, o porquê de ter aparecido por lá e tal.

O. virou-se para mim. Vi que ele tentou simplificar as ideias antes de começar a falar. Enquanto ia saindo pela porta da frente, explicou-me como pôde alguma coisa sobre o vínculo emocional com o idioma, o nacionalismo alemão e as implicações morais e comportamentais disso... bom, sei lá. Não saberia transcrever o que ele me disse, mas foi o momento de ver como esse cara de sapatos muito rasgados sabia exatamente do que estava falando. Não importava sua falta de articulação de minutos antes. Vi passando por seus olhos — que corriam de um lado para o outro enquanto ia descrevendo os propósitos da tese, isso, isto e mais aquilo — memórias sobre a enorme pilha de livros que o já devorara, as muitas aulas, discussões, e incontáveis horas gastas em alguma biblioteca de Paris dedicando pensamento ao porquê dos alemães que emigravam e amavam seu indelével Deutsch.

Enfim, depois acabei entendendo uma daquelas frases de livrinho de citação: as pessoas que mais têm o que dizer às vezes realmente são aquelas que mais tropeçam nas próprias palavras. Ou: não ter palavras nem sempre significa não ter o que dizer.

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Palavras que têm alma:

segunda-feira, 19 de março de 2012

O salmo 23 no escuro

Texto inspirado vagamente
por uma conversa com M.R.
— e mais uma série de coisas.

Estou sentado diante de uma senhora, cujo rosto de poucas rugas, bastante idade e feições claramente europeias, denotará em alguns instantes doce seriedade e algo de fascinação. Ela aperta um terço em sua mão direita, e ajeita os óculos redondos, levemente tortos. A sala é escura, e na verdade tudo o que eu consigo notar realmente é a escuridão. As sombras em seu rosto revelam mais que as partes iluminadas. Também são quase pretos os tons pastéis de sua roupa simples e pudica.

Entre nós há uma mesa. Minha cadeira é apertada, então me ajeito impaciente. Ela posta a mão esquerda sobre a mesa, tamborilando os dedos. Inclinando a cabeça e sorrindo interessada, pergunta-me:

“Me diz, então: o que te fascina?”

Não é uma pergunta simples. A sala em que estamos também tem uma janela. Como é noite e o céu está nublado, há uma claridade bastante sutil entrando. Isso significa que não vejo nada lá fora além de um grande e infindável preto acima do horizonte, mas graças a isso me ocorre oportunamente uma resposta aceitável: digo-a que me fascinam as estrelas.

Sra. R. me olha cética, mas não perde a pose nem o sorriso. Põe sua mão no queixo e deixa subentendida a pergunta. “Bom, gosto da ideia de olhar para cima à noite e ver tantos retratos de não sei quantos anos atrás”, complemento. Ela abranda o sorriso.

“Você sabe, as estrelas estão longe o suficiente para que nós apenas consigamos vê-las milhões de anos depois que suas luzes tenham sido emitidas”, eu digo, sentindo-me como Marcelo Gleiser. Parece que estou no Discovery Channel, falando pela centésima vez sobre a velocidade da luz e os irmãos que envelhecem diferentemente porque um deles está em uma espaçonave rápida à beça.

“E por causa disso,” continuo enfático, “estamos olhando para a fotografia — não literalmente, é claro — daquilo que as estrelas costumavam ser. E isso me fascina. As estrelas nesse antigo manto de escuridão fazem um belo jogo de luzes com o que está aqui embaixo”.

“Não sei bem se jogo de luzes é o termo certo aqui. Mas entendo o que você está querendo dizer. Também acho bacana,” ela me diz. No entanto, muda de assunto, e aproveitando a deixa, Sra. R. começa a contar-me uma parábola. Nessa parábola, a luz (“quiçá uma dessas estrelas que você tanto gosta”, diz ela de passagem) chama um homem feito de sal para dentro do mar. O homem de sal vai andando para dentro da água, tentando alcançar essa luz que continua a chamá-lo, ainda que isso o dissolva aos poucos. O homem obviamente se desfaz inteiramente depois de algum tempo, e termina por integrar o mar, junto com a luz.

“E a luz, veja só que incrível, é Deus.” Seu sorriso manso não se desfaz. “Não é fascinante?”

Não entendo a parábola. Olho discretamente o relógio, mas ele está parado. Também não me lembro como fui parar ali e fico desconfortável novamente. Penso até por um instante que é muito estranho inclusive que estivéssemos em uma saleta tão escura. Mas a historinha força-me a voltar-lhe a atenção, e questiono-a sobre a moral por trás daquilo.

“Ora, não é claro?”
Não, não é tão claro. Faço a mesma cara que meu cachorro faz quando converso com ele.
“O homem de sal tornou-se um com Deus. E isso é todo o necessário.”
”Mas ele deixou de existir—“
“Por certo, mas não importa. Ele incorporou-se ao amor infinito. Ihm wird nichts mangeln.”

Entendo qual é o seu ponto, mas não tenho certeza do que ela está tentando me dizer. Ela já sabe que acredito em nada. Ou, como lhe dissera pouco antes, tenho muita fé na inexistência de qualquer coisa (além do fundo de nossas pálpebras) quando fechamos nossos olhos. Digo-a que não sei se me interessa ficar imerso na escuridão do fundo do oceano, por maior que seja o amor a me acompanhar.

“Parece-me que você não está imaginando isso corretamente. Suponhamos que você fosse o homem de sal. Quando você estivesse enfim dentro do mar, a escuridão seria eigentlich um clarão acolhedor. Digamos, um branco fosco.”

Lembro-me de quando assisti “Ensaio Sobre a Cegueira”. Esse branco que ela descreve me faz pensar em algum tipo de cegueira metafórica para aceitação, mais ou menos como na imagem que passa a adaptação em filme. Sei lá, provavelmente não era disso que Saramago estava falando. Ainda assim, qualquer que seja a metáfora, não é como se me fosse estranha a fé incondicional que Margarete (eis seu primeiro nome, lembro de repente) demonstra. Talvez eu quisesse a sentir também.

„Und ob ich schon wanderte im finstern Tal, fürchte kein Unglück—“, ela entoou, e prontamente complementei:
„Denn du bist bei mir.“

Suas feições estão denotam como ela está satisfeita. Conheço, afinal, o salmo 23. Deve estar pensando que está diante de um crente relutante, apesar das justificativas. Minhas frases seguintes giram em torno de certas influências culturais que eu teria recebido; digo-a que, apesar da aparente relutância, ter crescido em um ambiente favorável a esse quase-cristianismo faz com que qualquer ideia de um pastor conduzindo minha alma atormentada — apesar de ser classe média branquinha e não ter muito com o que me atormentar, como observaria um grande amigo meu — seja uma ideia bem reconfortante. Pendão da esperança mesmo é aquela cruz pequeninha que ela ainda segura na mão direita.

“Se é que há um vale das trevas, ou da escuridão, prefiro pensar que ainda estejamos nele. Quer dizer, a inconsistência é bastante assustadora, mas tenho certeza que há formas também interessantes de amor sem que nos dissolvamos no mar”, falo meio que por falar. Antes que ela reaja, mudo de assunto:

“Amor também é algo fascinante.” Ela exclama contente em concordância, mas permanece sem dizer nada, apenas ouvindo-me falar. “Aliás, fascinantes mesmo são as pessoas.”

Margarete contém sua reação e espera pelo resto, ao que continuo: “Fico sempre impressionado de imaginar que certos animais (porque somos animais, mesmo com o polegar opositor e o telencéfalo altamente desenvolvido) sabem contrair determinados músculos do rosto para (propositalmente) sorrir. Isso diz muito para os outros animais que também têm essa capacidade. Há uma série de coisas para se tirar daí, como ver a paixão com que se enxerga o sorriso alheio—”

Eu paro no meio da frase, hesitando ao escolher as próximas palavras, e ela se aproveita da minha pausa:
“Porque afinal o amor é um pouco disso, não é?”

Não sei bem. Se saímos de definições complicadas acerca da pós-existência e Deus (algo que normalmente rende uma conversa difícil e aborrecida), estávamos agora em terreno ainda mais pantanoso. Repasso na cabeça o punhado de concepções a respeito de amor enquanto ela elabora a próxima frase, e acabo por concluir que não é algo feito de sorrisos, ainda que sorrisos sejam deveras agradáveis. Amor, pensando bem, é uma palavra muito pesada. Sorrisos são leves demais para isso.

“Acho que amor,” — seu tom é didático — “acontece quando você percebe a perfeição daquela pessoa que é imperfeita.”

“É, acho que é isso mesmo”, respondo. Assisti certa vez a uma entrevista dada por Jacques Derrida, mais ou menos sobre a mesma coisa, mas me faltam palavras para elaborar alguma coisa concreta e continuar. Estamos agora sorrindo amigavelmente um para o outro, um pouco sem o que dizer, mas dois gatos começaram a brigar lá fora e tiraram nosso foco da conversa. Os miados são muito estridentes.

“Só é uma pena que isso normalmente não seja tão simples”, digo quando os gatos ficam de novo em silêncio, procurando terminar o assunto e quem sabe a conversa. “Quero dizer, uma das minhas palavras favoritas em alemão é Leidenschaft, que significa ‘paixão’ em português.” Ela acena com a cabeça, sempre com uma expressão passiva e agradável.

“E gosto muito dessa palavra pelo jeito em que a conceberam. Veja, nunca olhei “Schaft” no dicionário, mas suponho que esteja de alguma forma ligada a um conjunto de alguma coisa. Não é? Porque se “Nachbar” é vizinho e “Nachbarschaft” é vizinhança, então o “-schaft” deve implicar definitivamente no coletivo da primeira palavra”.

“E se ‘Leiden’ é sofrimento em português,” — eu continuo — “você suporia sem dificuldade que ‘Leidenschaft’ deve ser um monte de sofrimento ou qualquer coisa dessa natureza. Mas ‘Leidenschaft’ significa ‘paixão’, veja só. Não me parece uma concepção somente germânica a respeito do significado de paixão." Ela passou a piscar um pouco mais rápido, seguindo o raciocínio. Levanta uma sobrancelha, e então termino, gesticulando um pouco demais.

“A paixão, portanto, é um monte de sofrimento (independentemente do grau desse sofrimento); mas é paixão. Na escuridão está o sentimento mais incrível — e fascinante — de que dispomos.”

E a escuridão, que já era forte na saleta em que estávamos, acabou por tomar-me completamente. Não saberia dizer quanto tempo isso levou; talvez uma hora, talvez algumas semanas, talvez uma vida inteira. Só sei que, passado esse ínterim, as sombras enfim cobriram toda a extensão do rosto de Sra. R. e não vi mais nada.

Meu último pensamento ainda pairou sobre a conversa, talvez deixando bastante claro que o amor (ou a paixão, que não são a mesma coisa, mas são partes de um mesmo todo) são contradições bastante complexas. Leidenschaft é um perfeito exemplo disso.

Enfim quis dizer em alemão, mas só me veio em inglês:
we must reinvent love.

--

Diferentes concepções de escuridão:
http://mundoderascunhos.blogspot.com.br/2012/03/quarter-to-three.html

*Sort of related: http://youtu.be/dj1BuNmhjAY