terça-feira, 29 de abril de 2014

Linhas mortas

Deadlines,
Deadlines,
Deadlines.

Gatos assalariados,
leões da receita,
e tigres de bengala:

Felinos corporativos
têm vidas demais.


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

"Ghost of Corporate Future", por Regina Spektor


A man walks out of his apartment,
It is raining, he's got no umbrella
He starts running beneath the awnings,
Trying to save his suit,
Trying to save his suit.
Trying to dry, and to dry, and to dry but no good

When he gets to the crowded subway platform,
He takes off both of his shoes
He steps right into somebody's fat loogie
And everyone who sees him says, "Ew."
Everyone who sees him says, "Ew."

But he doesn't care,
'Cause last night he got a visit from the
Ghost of Corporate Future
The ghost said, "Take off both your shoes
Whatever chances you get
Especially when they're wet."

He also said,
"Imagine you go away
On a business trip one day
And when you come back home,
Your children have grown
And you never made your wife moan,
Your children have grown
And you never made your wife moan."

"And people make you nervous
You'd think the world is ending,
And everybody's features have somehow started blending
And everything is plastic,
And everyone's sarcastic,
And all your food is frozen,
It needs to be defrosted."

"You'd think the world was ending,
You'd think the world was ending,
You'd think the world was ending right now.
You'd think the world was ending,
You'd think the world was ending,
You'd think the world was ending right now."

"Well maybe you should just drink a lot less coffee,
And never ever watch the ten o'clock news,
Maybe you should kiss someone nice,
Or lick a rock,
Or both."

"Maybe you should cut your own hair
'Cause that can be so funny
It doesn't cost any money
And it always grows back
Hair grows even after you're dead"

"And people are just people,
They shouldn't make you nervous.
The world is everlasting,
It's coming and it's going.
If you don't toss your plastic,
The streets won't be so plastic.
And if you kiss somebody,
Then both of you'll get practice."

"The world is everlasting
Put dirtballs in your pocket,
Put dirtballs in your pocket,
And take off both your shoes.
'Cause people are just people,
People are just people,
People are just people like you.
People are just people,
People are just people,
People are just people like you."

The world is everlasting
It's coming and it's going
The world is everlasting
It's coming and it's going

It's coming and it's going


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Una invitación para entrar a tu vida (ou ‘o eclipse de olhos verdes’)

Todas as quintas-feiras, depois do almoço e antes de voltar ao escritório, nós vamos ao mesmo café onde o brigadeiro é servido de graça com o espresso, e onde o garçonzinho de gravata borboleta se confunde jocosamente com pronomes de tratamento. Não, é sério: uma parte da nossa diversão é receber o ‘bom dia, senhores’ dele quando entramos, para depois irmos embora com o seu ‘valeu bróder’ meio gaiato.
Enfim, eis que Lotte entra no café de novo. Observando-a se aproximar da mesa, ouço, como nas outras semanas, o desenrolar de todas as palavras que eu direi, assim como todas as respostas que ela me dará. A cena desenreda-se de imediato na minha cabeça — de novo.
Oi, eu vou dizer.

Olá, ela vai dizer com tom doce.
E aí passaremos a conversar, e será bem agradável. Vou elogiar o seu brinco e a blusa lilás. Aí ela dirá algo pequeno, inócuo, alguma sacadinha de me fazer sorrir de lado, algo sobre mim, algo que eu ainda não havia contado a ela. Alguma coisa impossível.

Pois então. Fico aqui sentado, mexendo com a colherinha meu café amargo e observando-a debruçada no balcão e convenientemente inclinada. Café com leite e bombom de morango.
“Café com leite e bombom de morango”, ela diz, como quem quase ordena e comanda a senhorinha no caixa. Dá um passo ao lado para que a fila ande, e folheia uma das revistas sobre a mesinha onde fica o açúcar, os talheres de plástico e os guardanapos.
O mundo, quase como um relógio. Aperta-se o botão, troca-se mais um filtro da máquina de café, e açúcar ou adoçante—

“Açúcar ou adoçante?”
“Nenhum dos dois, obrigado.”
“Ok, querida.”
As coisas acontecem, tudo na sua ordem, com os botões apertados, resultados antecipados e os padrões perceptíveis, de tal modo que, se você não jogar uma pedra nas engrenagens ou forçar a barra, tudo vai funcionar perfeitamente. Não haverá nada que o impeça de dissimular que tem algo profunda e fundamentalmente errado no meio de tudo isso.

Mas é besteira.
É besteira porque Lotte voltou a se sentar. Lotte, com seu café com leite e o bombom comido em mordidas ínfimas.
Charlotte é seu nome inteiro, na verdade. Não conheço ninguém como Charlotte, tampouco outra pessoa com o mesmo nome, para falar a verdade. Deixei-me enlevar tantas vezes pela pequena mancha redonda preta que orbita a íris castanho-esverdeada ao redor de sua pupila, que já não creio mais em outro destino que não o fundo de seus olhos. E também o sorriso desenhado, contraponto às mechas de cabelo castanhas e a pele pálida. Ah, Charlotte, que nem sabe disto, mas como senti sua falta.
Hoje o assunto é palpitante. Ela mexe a bolsa, descuidada com a conversa, perguntando o que acho sobre ‘amor’. Assim mesmo, sei lá, ‘o que você acha sobre amor’. Logo em uma quinta-feira tão atribulada. Minha cabeça continua no arquivo do escritório e na cara amarrada dos clientes céticos, e eu tendo que pensar em algo inteligente para dizer.
Eu não digo nada muito de imediato, então Lotte volta sua atenção para a silenciosa superfície da mesa, já que cansou de procurar algo que evidentemente não está na bolsa. Para dar uma resposta, vejo que meu lado direito cartesiano um tanto boring toma a frente, porque desenho no guardanapo um gráfico com ‘sentimento’ e ‘’tempo’ nos eixos, traçando curvas a que chamo de ‘paixão’ e ‘amor’. Uma coisa sucede a outra naturalmente, não?
“Não, não; ‘cê tá entendendo tudo errado. Amor não segue muito uma lógica. E mais importante, amor não é um sentimento.” (E ela não liga se a conversa não nos levará a lugar nenhum, se é clichê ou pretensiosa). “Amor são ações”, ela afirma com tom muito entendido e didático. “E não dá pra amar assim sem fazer nada.”
Ela morde o pedacinho que resta do bombom, e termina o café. Amor são ações, veja só.
“Vai mais um docinho aí, senhores?”, pergunta o garçom, que surge como um Mestre dos Magos de gravata borboleta e munido de bandeja de metal. Lógico —sempre tem mais espaço para um docinho, e é o que dou a entender com minha cara de formiga sorridente.
Já é quase hora de ir embora, ao menos para evitar que o papel colado na parede da sala onde trabalho, indicando os horários de entrada e saída dos funcionários, explicite ao chefinho no final do mês que estendi o almoço além da conta. Confiro o relógio do celular.
“Vamo aí, senhores?”, Lotte pergunta.
Sim, vamos. Ela sorri, e essa fração de segundos se arrasta um pouco mais do que todas as outras, como se o tempo ficasse meio devagar de supetão. Eu vou sorrir de volta, ela vai sorrir mais um pouco, a gente vai se levantar pra pagar e aceitar a balinha de canela que nos oferecerão no caixa. Charlotte se despedirá sem dizer nada, só com os seus olhos e o sublime eclipse interno da íris esquerda, e vou dizer ‘até semana que vem’. Ela vai dizer ‘até’, daremos uma pausa em silêncio, e aí iremos embora em direções opostas, cada um com uma música na cabeça.
“Amor não é um sentimento”, e não é nem a conclusão dela que surpreende tanto, e sim como ou quando chegamos nesse ponto. Quinta-feira por quinta-feira, um cafezinho com bombom por vez… quiçá fui de fato chegando mais perto da lua que tangencia sua pupila — e parece que entrei logo em órbita do espaço de mim mesmo. Aonde isso vai dar eu não sei, mas se for preciso eu vou lá, ansioso para ver o que me espera.
O que importa é que o quadro que eles têm lá no cafezinho, solitário na parede amarelo-torrada, está com mais razão que imaginei. “A veces um café es la invitación para que alguien entre a tu vida”, assim mesmo em espanhol. Quem diria.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

a vastidão de todas as almas em três letras banais


Os ingleses e americanos ganham mais uma vez. Os anglófonos desse mundo, ignorantes em termos de ‘saudade’ por uma tecnicidade linguísica – carecem de equivalente para seus idiomas –, são donos do awe, e nos superam com facilidade em termos de palavras intraduzíveis. Awe é o pior de nossos medos e também a dádiva mais prodigiosa; a  sensação de ruína e a glória; a satisfação aparentemente eterna que brinca com nossa noção de tempo por seu êxtase constante ou delírio assustador. Três letras bastaram para admiração, espanto, rapto dos sentidos, estupefação e enlevo, como se toda a dualidade inevitável da vida coubesse num substantivo banal.
E nós aqui, afoitos com dicionários analógicos da língua portuguesa, só para ver se aparece algum equivalente.
***
Fiquei vendo na TV outro dia uma longa reportagem sobre a Cracolândia em São Paulo e seu equivalente no Rio de Janeiro. O repórter grisalho e sua colega de ascendência japonesa aventuravam-se pelas ruas ocupadas por maltrapilhos agressivos e desesperados, delirando nas suas pedras de crack e deixando a química da droga aliviar o martírio de suas mentes. Um sonho dantesco de indivíduos amaldiçoados pelo terror da condição social e tantos outros que cairam ali por motivos não explicadas pelos jornalistas.
Senhor deus dos desgraçados! Vê só lá pelas tantas o repórter exaurir sua fonte nos focos principais da reportagem para buscar viciados fora da cracolândia. Havia um casal de drogados jogados sob a ponte que fitava o nada e mexia a cabeça de modo meio demente. O homem está com a cara borrada para poupar sua identidade já há tanto tempo perdida, mas a mulher não. Ela é abordada pelo homem grisalho e bem vestido que conduz a entrevista.
Ele se aproxima com cautela. Ela está desconfortável pela sua presença e da câmera, e tenta fingir que sua situação é perfeitamente normal. Ao ser perguntada por que está triste naquele dia, ela desconversa. “Triste, eu? Por quê?”, mas há insistência. Ela rebate as inquisições com comentários sarcásticos, mas começa a lacrimejar. “Porque você chora se está feliz?”, questiona o repórter. “Sinto falta”, e treme débil com suas mãos magras e os poucos dentes na boca, e não consegue completar o que ia dizer. “Sinto falta da minha vida, sabe”, e chora à beça. “Meus filhos, a terra de onde venho—”, mas nisso intervém o seu companheiro, que se opõe violentamente à presença da equipe de reportagem ali. “Vão ficar falando merda aí, sai fora, meo.”
Gaiato, o repórter leva embora a mochila, e continua sua missão ao buscar o cara que foi assaltado pelos dois e teve seus bens subtraídos. Essa parte, no entanto, é extra: o awe terrível de uma habitante exilada da Cracolândia fora destilado com sucesso. “Um drama do Brasil, questão de saúde pública”, diz o estudante dono da mochila. Enquanto isso, os telespectadores afoitos não conseguem aceitar bem o que viram e se contorcem na cadeira de casa. Questão de saúde pública, sim, pode ser —  mas não sabem nem descrever o que os acertou. Falassêmos inglês, estariam poupando palavras e sorveriam desgostosos o awe que se transmitia pela televisão.
Após os comerciais, volta ao último bloco a reportagem. A equipe de jornalistas se divide em dois para reencontrar viciados já entrevistados em edições antigas, de vários anos atrás, do mesmo programa: a moça nipônica, no Rio de Janeiro, e o sujeito grisalho, em São Paulo. Ela vai atrás de uma criança, que entrou nessa porque a família toda já usava o crack, e ele vai buscar uma mulher que havia reconquistado a sobriedade no transcorrer da última reportagem.
Essa parte começa com uma retrospectiva: a mulher, morando em uma favela junto com o pai e o resto da família, descrita como boa gente, cercada de pessoas boas e boas intenções. Em algum momento ela começa a usar a droga, passa a morar na rua, e se perde na vida. Vários takes do pai procurando por ela passam em seguida, intercalados com a visão dele construindo um sobradinho só para ela. Aí ele consegue recuperá-la. A usuária está acabada, mas foi reencontrada e volta assim a dormir em casa. A moça, agora de aparência tão lamentável, vai ao centro de recuperação. Cortam para imagens de meses  depois: em uma igreja,  morrendo afogada no seu próprio mar de fé, ela chora intensamente. O pai também chora, e todos se emocionam. Dão a ele um microfone: “dá vontade de chorar, de rir, eu não sei! Eu nunca estive tão feliz, não consigo nem entender isso aí. Só pode ser coisa de Deus!”
A audiência respira feliz com o pólo oposto daquela sensação de putridão da droga que vinha sendo descrito até então. Finda a retrospectiva, os jornalistas batem à porta do pai da moça: em que pé ficou aquela história? Por onde ela anda? O pai abre a porta já meio desesperançoso e cansado. Ah, pois é. Cansei. Tanto tempo e esforço para salvar minha filha… Voltou pra Cracolândia. (Ele lacrimeja.) Não sei mais o que fazer.
A equipe sai na mesma busca pela moça, e a encontram. O que aconteceu?, eles querem saber. Como é que você acabou voltando para a droga? Não tinha se recuperado? Ela não está afim de dar explicações. Diz que é doente, é viciada, tem um problema — e é isso aí. Recaiu, voltou, ta aí de novo.
Em uma última visita a esse pai que gostaria de ter qualquer motivo para não dar outra entrevista sobre a filha viciada, o repórter explica que a viu na Cracolândia na sexta feira anterior. Ele meio que repete o discurso, como quem diz que não adianta fazer todo esse auê — essa alma aí não vai ser salva.
Último quadro do dia: “falamos com seu pai”, dizem os repórteres para chamar a atenção. “E ele sente a sua falta. Disse que vai deixar um espacinho lá na casa dele para você, e você pode sempre voltar quando quiser…” Ela segura algumas pedras na mão, e os fita longamente. “Ah é?”, pergunta meio desolada. “Sim”, diz o repórter. “Pô, tamo junto”, ela conclui, longe da salvação do ano anterior e longe, na verdade, de qualquer salvação. Ela vai embora, caminhando de volta em direção a mais um grupo grande de pessoas como ela.
Termina o programa. É difícil de dormir com a memória da usuária de crack que chora diante do repórter. Há algum tipo de vastidão nessas pessoas, mas do mesmo tipo de vastidão que tem um abismo profundo. Há um medo intenso da profundidade, e a morte como problema e também como solução. E é o awe de que falo na sua polaridade confusa e pessimista. (“Maybe you should never ever watch the 10 o’clock news”!)
***
Mantenho-me ainda impressionado pela versatilidade bizarra da palavra. Logo “awe”, de som tão banal. Saudade soa muito melhor, sem dúvida, mas está presa a um aspecto só de um sentimento tão comum, nesse lado triste da ausência alheia. E o  ”awe” transita de um lado para o outro – ora ‘desolação’, ora ‘fastio da alma’.
Eis a forma com que tornei a dormir depois, aliás. A vastidão percebida pelos nossos sentidos incrédulos deixa cicatrizes profundas na memória não só por conceber a difícil existência, por exemplo, da Cracolândia. Ela — e o ‘awe‘, por tabela —  também está presente nos melhores momentos de beleza sublime, graça e em eventuais provas de paixão, quando não se sabe a diferença entre a dança e a dançarina.
A metáfora é pertinente, por sinal. Sempre lembro disso quando me dou conta que estou dançando em algum lugar. Esse é o outro exemplo, o mais leve: nunca soube me livrar desse temor engraçado que acompanha o momento antes de se soltar junto com a música, ainda que lembre com alegria anormal das vezes em que isso deu certo. É meio idiota também, é verdade. Mas o súbito receio de esquecer como se move ao som de uma canção qualquer é tenaz e persistente.
Explico, e rogo a presença da morena de voz cantada. Morena de voz cantada, perfume de flores, de intenso vicejo e coração (secretamente) selvagem, de rosto bonito e pés dançantes. Aí, aliás, é que está meu ponto: tenho certeza que é sublime a fluidez com que minha morena encarna os compassos,  brincando com o corpo e me tomando em transe – e fazendo que não sabe disso, mas sei que sabe. Céus, como se compete com isso? Como dançar se, no deslumbre meio passional, até esqueço como se faz para andar?
E o awe, devolvendo o mérito para meus camaradas estadounidenses ou britânicos, resumindo todo esse micro-drama e apressando em muito os tropeços desse meu coração aflito, canta sua glória. Meu caro, diz ele, é uma questão de aceitar e desistir, ou render-se à noite que não te dá outra opção, e conviver pacificamente com sua felicidade.
As noites em que sou bem sucedido encerram-se em cenários de pistas de dança progressivamente mais vazias, e a morena me sorri. E o âmago da minha existência, assim com todo o seu exagero inerente, agradece em igual tom, sorridente e satisfeito. Não por dançar ou deixar de dançar per se, mas por ter testemunhado bossas e poemas de Vinicius tomarem vida na minha frente, justificando o Werther do Goethe, e me fazendo recorrer a todo o tipo de referência, mais ou menos bossal, para tentar entender e explicar como estou absolutamente tomado por essa sensação meio insana de paixão. Algo meio difícil de descrever, que não cabe nas minhas pupilas dilatadas ou na súbita vastidão de uma alma cética que, de repente, esquece da Cracolândia ou desses temas tão difíceis. Ali, atordoado, buscando palavras e você — “oi, babe!”, tão simples e sensacional. É óbvio que vou acabar fazendo gracejo.
"No que você está pensando?", você vai me perguntar. Eu teria que entrar nesse assunto dessa forma, assim longamente, mas não sei se você precisa ouvir tudo isso. Fosse eu inglês ou americano (ou mesmo canadense ou quem sabe australiano), resumiria inclinando a cabeça de leve e dizendo, só depois de uns dois segundos: “awe”. 
***
Pensando bem, enfim vou concluir que a dualidade extensa e maluca dessa história toda é o seu próprio ponto positivo. Assim como não é necessariamente compatível viver a vida e, ao mesmo tempo, entendê-la, ainda que a dança e dançarina não se diferenciem entre si. A chuva, me disseram, soa como aplausos se você fechar os olhos, aliás. Mas, no fundo, são a mesma coisa.
--
Eu nem sempre sei como dizer o que quero dizer, e frequentemente demoro muito para fazê-lo. Mas digo mesmo assim.
http://mundoderascunhos.blogspot.com.br/2013/06/far-too-many-postage-stamps-pt1.html

terça-feira, 16 de julho de 2013

Vidas inventadas

ou: Os fantasmas de Darwin e o paradoxo da escolha


“Mate!” — exclama o Darwin, meu vizinho neozelandês desses últimos meses, deixando-se cair na cama onde estava sentado.

Estamos próximos das despedidas que nos separarão por anos, tomando cerveja berlinense no pequeno apartamento dele e jogando conversa fora com o húngaro que mora na porta ao lado. Um dia Darwin me disse que tinha um segredo terrível, o qual nos contaria oportunamente quando estivéssemos na residência; depois de muita insistência, ele concordou que essa seria a ocasião. Insistindo mais um pouco, ouço-o me retrucar outro “mate!” hesitante e procurar no teto branco do quarto por onde começar.

Chegar ao ponto de convencê-lo a me contar alguma coisa, no entanto, levou algum tempo. Ironicamente, apesar de Darwin ter me despertado uma curiosidade incansável acerca da sua vida, ele é um cara extremamente desinteressante. Se tivesse que resumi-lo, talvez dissesse que é um tanto preguiçoso e cheio de opiniões bem ordinárias, e seu notável hábito de nunca ir à aula nenhuma incomodava meu senso de obrigação cotidiano. E aí, por trás do sorriso que ele me dava quando eu aparecia vez ou outra para visitá-lo na porta ao lado, sempre achei que algo ali havia de ser contado em histórias meio alcoolizadas que eu não esqueceria.

A primeira vez que entrei no pequeno apartamento habitado por ele, aliás, rendeu-me quase um choque: tudo o que ele possuía e trouxera para cá estava misturado e jogado pelos cantos, sobre o chão do quarto que era impressionantemente imundo. Embora seja um cara bastante sozinho, era como se lá convivesse mais um pequeno caos de pessoas alheias ao asseio e organização. Só mais tarde fui entender que era exatamente esse o motivo da bagunça e da aura de mistério que ele dava ao seu grande segredo: Darwin realmente morava com mais pessoas. Isto é, todos os fantasmas de suas outras vidas inventadas.

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terça-feira, 25 de junho de 2013

"I'm thinking about you", by Mike Taylor

From "Brave New Voices", as seen on YouTube:

Yesterday you asked me
if I think about you during the day,
in class or on the bus.
Do I ever wonder who you’re with,
or what you’re doing,
or what you’re thinking about?
Well, I’m in math class right now...
and I’m thinking about you like crazy!

Like,
hands think about holding,
and arms think about folding.
and minds think about not thinking,
but knowing.

I’m thinking about you
like feet think about socks
and socks think about shoes.

I’m thinking about you
like rock and metal think about screaming
like blues think about rhythm,
like hip-hop thinks about… hoes?
Like gardeners think about hose,

I’m thinking about you
like tops think about spinning
like rocks think about sitting
and cops think about arresting people.

I’m thinking about you
like people think about the clock
five minutes before their shift ends.

I’m thinking about you
like A thinks about being with B,
like B thinks about C and D,
like E, F and G,
like H… I and J.

I’m thinking about you
like white and black think about
making grey in a paint pallet,
like night thinks about making day in the morning
like rain clouds think about pouring,

I’m thinking about you
like math analysis thinks about being boring
(Because, seriously,
any class this boring
has had to take some serious thought.)

I’m thinking about you
like the last problem in this math quiz.

I’m thinking about you
like bugs think about grass,
like thugs think about… grass.

like students think about class,
like, ladies! think about class,
like lower mid class people think about flying first class to places
they only think about, like New Zealand or France.

I’m thinking about you
like pilots think about the horizon,
like the clouds think about the wind
and the wind thinks about trees,
like teenage boys think about the birds and the bees,
and the bees think about serving the queen, and making honey,
and honey, I’m thinking about you like crazy!

Like,
like mattresses think about springs
and winter thinks about spring,
who thinks about summer
and it doesn’t matter what season it its!
When I’m thinking about you it’s always sunny,
like rainbows and bunnies,
and I’m thinking about you
like rich people think about making money,
and broke people think about making money,
and when I’m thinking about you,
the world makes sense.

Let me go change.
I’m thinking about you when I get dressed
because, before I step on stage,
when I look at myself in the mirror
you’re the only one
that I’m trying to impress.

I’m thinking about you
like boats think about floating
and paddles think about rowing
and poets think about flowing
I’m thinking about you
like bankers think about loaning
like renters think about owning
and stoners think about…
throwing rocks!

I’m thinking about you
like keyboards think about keys,
and keys think about unlocking locks,
like goldilocks still thinks about bears
like Bears thinks about being cool.

I’m thinking about you
like refrigerators think about being cool
and microwaves think about being hot,
like kids think about breaking rules,
like targets think about getting shot.

I’m in math class right now,
not trying to get you off my mind.
Just simply off the sine, cosine
and tangent lines I’m graphing.
I’m thinking about you
like numbers think about adding,

like cripples think about standing.
I’m thinking about standing up
and walking out.

I’ll say I have to go to the bathroom or something
and I’m gonna find out exactly who you’re with,
and what you’re doing and what you’re thinking about!
but,

I think you’re in math class right now, too.
So I’ll text you:
'I’M. THINKING. ABOUT. YOU.'

Send!




quarta-feira, 12 de junho de 2013

"Sonder", by John Koenig

From the "Dictionary of Obscure Sorrows", as seen here: link.

"You were the main character, the protagonist, the star at the center of your own unfolding story. You are surrounded by your supporting cast; friends and family hanging in your immediate orbit. Scattered a little further out, a network of acquaintances drifts in and out of contact over the years. They’re in the background, fainting out of focus. 

Or the extras. The random passers-by, each living a life as vivid and complex as your own. They carry on invisibly around you, wearing the accumulated weight of their own ambitions, friends, routines, mistakes, worries, triumphs and inherited craziness. When your life moves on to the next scene, there’s flickers in place, wrapped in a cloud of backstories, inside jokes, characters struggling together with countless other stories you’ll never be able to see. That you never know it exists. In which you might appear only once. As an extra sipping coffee in the background. As a blur of traffic passing on the highway. As a lighted window at dusk."




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'Original definition':