domingo, 22 de maio de 2016
Heads up
O porquê de você estar aqui nessa página e lendo este post é algo que me desperta curiosidade. Em todo caso, vale o aviso: pelo layout mais bonito e para ter um backup, esse blog está também pelo Wordpress agora.
Link: https://ihopethisisnttheend.wordpress.com/. Have fun ;)
Só existe um tipo de gente
Harper Lee: "O Sol É Para Todos" (To Kill a Mockingbird)
Capítulo 23, pp. 282-283.
***
— Sabe de uma coisa, Scout? Agora entendi tudo. Tenho
pensado bastante nisso ultimamente e entendi. Há quatro tipos de gente no
mundo: as pessoas comuns como nós e nossos vizinhos; as que vivem no mato como
os Cunningham; as que vivem no lixão como os Ewell, e os negros.
—
E os chineses? E os cajun que vivem
no condado de Baldwin?
—
Estou falando de Maycomb. O problema aqui é que nós não gostamos dos
Cunningham, que não gostam dos Ewell, que, por sua vez, odeiam e desprezam os
negros.
Retruquei
que, se era assim, por que o júri, formado por gente como os Cunningham, não
absolveu Tom para irritar os Ewell?
Jem
ignorou minha pergunta por considera-la pueril.
—
Sabe, já vi Atticus acompanhar o ritmo de uma rabeca com os pés quando toca uma
música no rádio. E ninguém gosta mais de um caldo de legumes do que ele.
—
Então somos parecidos com os Cunningham. Não sei por que a tia...
—
Espera, deixa eu terminar. Somos parecidos sim, mas ao mesmo tempo diferentes.
Atticus uma vez disse que a tia dá tanta importância a essa história de berço
porque é só o que temos, não temos um centavo.
— Bom,
Jem, não sei... Atticus uma vez também me disse que essa história de “família antiga”
é bobagem, porque todas as famílias são antigas. Perguntei se isso incluía os
negros e os ingleses e ele respondeu que sim.
—
Berço não é a mesma coisa que família antiga, acho que quer dizer há quanto
tempo as pessoas daquela família sabem ler e escrever. Scout, estudei muito o
assunto e essa é a única razão que encontrei. Um dia, quando os Finch ainda
estavam no Egito, um deles deve ter aprendido um ou dois hieróglifos e ensinou ao filho —
Jem riu. — Imagino a tia toda orgulhosa porque o tataravô dela sabia ler
e escrever... As mulheres se orgulham de cada coisa.
—
Bom, ainda bem que o tataravô aprendeu, senão quem ia ensinar Atticus? E se ele
não soubesse ler, você e eu ficaríamos num mato sem cachorro. Não acho que
berço seja isso, Jem.
—
Então como explicar o fato de os Cunningham serem diferentes? O sr. Walter mal
sabe assinar o nome, eu já vi. Nós sabemos ler e escrever há mais tempo do que
eles.
—
Mas todo mundo tem que aprender, ninguém nasce sabendo. Walter é muito
inteligente, ele só se atrasa na escola porque tem que ajudar o pai. Não tem
nada de errado com ele. Olha, Jem, eu acho que só existe um tipo de gente:
gente.
Jem
virou-se e deu um soco no travesseiro. Quando se recostou de novo, parecia
confuso. Ia dar uma de suas descidas ao fundo dele mesmo e fiquei preocupada.
Suas sobrancelhas se juntaram, a boca virou uma linha fina. Ele ficou em
silêncio por um tempo.
—
Eu também achava isso — ele disse, por fim —, quando tinha a sua
idade. Se só existe um tipo de gente, porque as pessoas não se entendem? Se são
todos iguais, por que se esforçam para desprezar uns aos outros? Scout, acho
que estou começando a entender uma coisa. Acho que estou começando a entender
por que Boo Radley ficou trancado em casa todo esse tempo... é porque ele quer ficar lá dentro.
***
5ª Edição (2015), pela editora "José Olympio", tradução de Beatriz Horta. Incrível!
domingo, 7 de fevereiro de 2016
Negrito
As mangas e
carambolas rotas são ornamentos comuns dos passeios e veredas pelas ruas de
Assunção. Entre as rachaduras da calçada, brotam flores e se decompõem os
frutos das tantas árvores que se espalham por qualquer lado da capital paraguaia.
Poderia se dizer
até que o Paraguai, à primeira vista, serve de metáfora para o próprio Paraguai.
Some-se a isso o
som da cumbia onipresente, os ônibus
coloridos e a atmosfera pulsante do país e você tem, à primeira vista, o mesmo
cartão de visita que teria qualquer viajante a adentrar o Paraguai e suas
cidades injustamente infames. É sempre uma visão divertida.
Não nos
atenhamos a isso por ora.
Voltemos um
instante às árvores de fruta como ponto de partida. Tal como nas calles e avenidas, o panorama do quintal
da família Arámbulo se dividia igualmente entre um sobrado de fachada vagamente
espanhola e os arbustos e o pé de carambola.
Usualmente, a
casa oferece ao ocupante temporário a sensação de se habitar um corpo vivo. Os
cães rondam a casa industriosamente Carros entram e saem, de modo que sempre se
pode ouvir um motor roncando. E mesmo o visitante mais introspectivo sempre se
de deparará com mais uma conversa e mais uma cuia de tererê gelado.
Na metade desse
verão, estamos sem a Polka Paraguaia de costume. É fim de tarde num domingo
desses que serve para pouco além de comer, dormir e perder a carteira.
“Negrito se murió”, diz madre de supetão, surgindo pela porta
sem cerimônias.
Estamos sentados
na sala trabalhando. É evidente que a surpresa nos assusta. Negrito era o mais velho dos cães,
grisalho e débil, que enfim resolvera deixar de lutar com sua própria falta de
vitalidade.
Hermana a encara surpresa.
“Puedes imaginar el estado de tu
abuelo y abuela”, diz Madre, fitando a Hermana.
Hermana não reage de pronto. O
silêncio permanece suspenso no ar por mais alguns momentos, até que Madre deixa o quarto de novo.
Tardo a reagir. Ao
enfim me dirigir ao quintal, a casa parece ter se mantido em estado de suspensão:
a televisão dialoga sozinha com seu espanhol embolado, e o ventilador de teto
gira à toa.
No quintal,
enfim, a família assiste Cuñado e Hermano cavarem uma pequena cova sob o
pé de carambola.
Abuelo e Abuela são efetivamente os que mais
sofrem. O aspecto brincalhão ou dócil de ambos agora se mantém velado e
sufocado. Ao seu entorno, Madre e Cuñada velam o cão discretamente, ao
passo que tentam distrair Sobrino e Sobrina de se darem conta do que
realmente passou.
As moscas que
normalmente voam em torno dos frutos em decomposição agora rondam agitadas o
cadáver de Negrito, estirado no chão
em seu canto de sempre.
Aproximo-me de Abuelo e Abuela.
“Lo siento”, digo-lhes
atrapalhadamente, como normalmente fazia em função do meu espanhol bagunçado. “Por
el perro. Es una lastima”, digo
e repouso uma mão sobre o ombro de Abuelo.
Ambos me
sinalizam genéricamente que estaría tudo bem. Não está, é claro, mas que eu não
me preocupasse.
Kiki, o outro
cão, corre animado por minhas pernas. Ao fundo, Cuñado e Hermano cavam
diligentemente a cova de Negrito.
“E sabes que o
cão sempre volta para casa, não é verdade?”, me diz Abuelo.
Abuela nos observa,
esperando a deixa de censurar uma galhofa de Abuelo.
“Sim, é verdade.
E o gato e o kavaju também”, conta.
Me parece ser
uma anedota demasiado distante da situação que estamos, mas sem dúvida qualquer
distração é certamente melhor do que ir muito a fundo na situação já declarada
da morte de Negrito. Seu rosto
avermelhado e inchado mostra fagulhas de alegria ao dissertar sobre qualquer
outra coisa e deixar aflorar alguma broma.
“Tínhamos um
gato branco e belíssimo há muito tempo. E na Costanera tem um clube náutico, certo? Então. Um dia, por exemplo,
fui até lá com um compañero deixar o
gato para que não voltasse, e depois fomos comer pescado ali por perto.”
Ele inclina sua
cabeça e me olha por cima dos óculos tortos.
“E aí pegamos o
carro e voltamos. Adivinha o que aconteceu? É claro, o gato estava lá
tranquilo, como se absolutamente nada tivesse acontecido.”
Abuela intercede.
“Los perros también. Aquele ali só vai até
a esquina, mas o outro conhece o bairro todo. Sai correndo pela porta, explora
uns tantos quarteirões e depois retorna logo mais”, afirma.
É bom saber que
o Negrito deixou sua mente
momentaneamente. Se não fosse por sua cova e as pás arremessando terra para o
alto ao fundo, o domingo certamente teria passado batido de tão ordinário.
Abuelo segue.
“E um compañero meu tinha um kavaju também que era excepcional. Muito
manso. Ele tprecisava frequentemente dirigir suas carroças para levar
encomendas por aí, e para isso usava o cavalo”, contava. “Y bueno, te dizia que, se você não deixa o gato ou o cavalo do
outro lado de um rio ou algo assim, eles inevitavelmente voltam.”
Abuela assentia.
“E você sabe que
um dia pediram esse cavalo emprestado. Así
nomás. Disseram ‘vou ali, usar o cavalo só um pouco e te devolvo amanhã’,
meu compañero concordou, e lá se
foram com o cavalo”, dizia. “O cavalo era muito manso. Foi tranquilo, como se
não fosse nada.”
Ao fundo, Madre distraía Sobrino para que não ficasse muito curioso com aquele buraco enorme
no chão.
“E no dia
seguinte, quando foram buscar o kavaju, ele
não estava mais lá. Assim mesmo, simplesmente não estavam. Até perguntou como,
e responderam que não sabiam, ‘fomos ali fazer não sei o que’, e pronto. O
cavalo se foi.”
“E então?
Encontraram o cavalo?”, perguntei.
“A verdade é que
não. O buscaram e não encontraram em lugar nenhum. Mas ao cabo de três dias—“
“Ele apareceu?”
“Sim, apareceu.
No terceiro dia ele de repente voltou trotando tranquilíssimo, entrou pela
porteira que ficara aberto e se pôs em seu lugar onde sempre ficava”, conclui. “Gatos
e cavalos sempre voltam a sua casa. Cachorros também”, me diz.
Nisso, Cuñado e Hermano resolvem enterrar o cão, e o pegam pelas patas. A visão ao
fundo passa a ser de Negrito sendo
carregado como se fosse um pedaço de carnes e ossos.
Abuela e Abuelo os acompanham, enquanto os demais
se retiram.
Negrito parece não se
acomodar muito bem no buraco que fora cavado, mas logo é ajeitado pelos dois
que prepararam seu sepulcro. Seus olhos entreabertos são uma visão tétrica, e
triste para os dois mais velhos ali parados.
A terra volta a
ser jogada no buraco, tapando Negrito com
baques surdos e concluindo o rito aos poucos. Penso no meu próprio avô, agora
falecido, e no jeito jocoso com que tratava a morte, mesmo em uma cerimônia
bastante parecida ainda no Brasil. Não
consigo deixar de pensar que talvez ali ambos contemplem sua própria
efemeridade e isso os entristeça de igual maneira.
A bem da
verdade, todo o cenário se anuncia dessa maneira, com as carambolas suculentas
e rotas no chão, e mesmo cos primeiros passos de Sobrina em contraponto com o cambaleio decrépito de Abuelo.
Logo mais
tornamos a sentar. Abuelo sorve seu
tererê pensativo.
O cão sempre
sabe aonde voltar, assim como o cavalo e o gato, a não ser que se ponha um
obstáculo suficientemente grande para os segurar alhures e forçar seu abandono.
De igual forma, Madre, Hermana, Sobrinos,
Abuelos e Cuñados se puseram em
suas posições anteriores. Seguem com sua aparente função na casa e no seu ofício particular à posição ocupada: fazer a comida, sorver outra cuia de yerba, distrair as crianças ou o que fosse.
De igual modo, os cães tornaram
a rondar a casa. Alguém ligou o carro e o manobrou para sair de novo. Outra
carambola caía no gramado, e as moscas voavam em círculos incautas e ansiosas
por qualquer matéria decomposta e convenientemente jogada pelo quintal.
Meu tempo no
Paraguai é curto. Não terei muito tempo para pensar nas rachaduras na calçada e
nos encaixes improvisados entre as tantas camadas de gente e os contextos
extensos desse país inusitado.
Mas a pergunta
permanece. Se o kavaju estiver certo,
todos voltamos eventualmente para nossos lugares e nos colocamos onde
deveríamos. E assim se põe o sol, e tudo deve seguir como se espera, com ou sem
o Negrito enterrado sob algum
arbusto.
Resta saber aonde vou eu.
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016
"As Duas Lanternas", de Ramón Campoamor
Las dos linternas
I.
De Diógenes compré un día
la linterna a un mercader;
distan la suya y la mía
cuanto hay de ser a no ser.
Blanca la mía parece;
la suya parece negra;
la de él todo lo entristece;
la mía todo lo alegra.
Y es que en el mundo traidor
nada hay verdad ni mentira:
«todo es según el color
del cristal con que se mira».
II.
-Con m linterna -él decía-,
no hallo un hombre entre los seres-.
¡Y yo que hallo con la mía
hombres hasta en las mujeres!
¡El llamó, siempre implacable
fe y virtud teniendo en poco,
a Alejandro, un miserable,
y al gran Sócrates, un loco.
Y yo ¡crédulo!, entretanto,
cuando mi linterna empleo,
miro aquí, y encuentro un «santo»:
miro allá, y un «mártir» veo.
¡Sí!, mientras la multitud
sacrifica con paciencia
la dicha por la virtud
y por la fe la existencia,
para él virtud fue simpleza,
el más puro amor escoria,
vana ilusión la grandeza,
y una necedad la gloria.
¡Diógenes! Mientras tu celo
sólo encuentra sin fortuna,
en Esparta algún «chicuelo»
y hombres en parte ninguna,
yo te juro por mi nombre
que, con sufrir el nacer,
es un héroe cualquier hombre,
y un ángel toda mujer.
III.
Como al revés contemplamos
yo y él las obras de Dios,
Diógenes o yo engañamos.
¿Cuál mentirá de los dos?
¿Quién es en pintar más fiel
las obras que Dios crió?
El cinismo dirá que él;
la virtud dirá que yo.
Y es que en el mundo traidor
nada hay verdad ni mentira:
«todo es según el color
del cristal con que se mira».
I.
De Diógenes compré un día
la linterna a un mercader;
distan la suya y la mía
cuanto hay de ser a no ser.
Blanca la mía parece;
la suya parece negra;
la de él todo lo entristece;
la mía todo lo alegra.
Y es que en el mundo traidor
nada hay verdad ni mentira:
«todo es según el color
del cristal con que se mira».
II.
-Con m linterna -él decía-,
no hallo un hombre entre los seres-.
¡Y yo que hallo con la mía
hombres hasta en las mujeres!
¡El llamó, siempre implacable
fe y virtud teniendo en poco,
a Alejandro, un miserable,
y al gran Sócrates, un loco.
Y yo ¡crédulo!, entretanto,
cuando mi linterna empleo,
miro aquí, y encuentro un «santo»:
miro allá, y un «mártir» veo.
¡Sí!, mientras la multitud
sacrifica con paciencia
la dicha por la virtud
y por la fe la existencia,
para él virtud fue simpleza,
el más puro amor escoria,
vana ilusión la grandeza,
y una necedad la gloria.
¡Diógenes! Mientras tu celo
sólo encuentra sin fortuna,
en Esparta algún «chicuelo»
y hombres en parte ninguna,
yo te juro por mi nombre
que, con sufrir el nacer,
es un héroe cualquier hombre,
y un ángel toda mujer.
III.
Como al revés contemplamos
yo y él las obras de Dios,
Diógenes o yo engañamos.
¿Cuál mentirá de los dos?
¿Quién es en pintar más fiel
las obras que Dios crió?
El cinismo dirá que él;
la virtud dirá que yo.
Y es que en el mundo traidor
nada hay verdad ni mentira:
«todo es según el color
del cristal con que se mira».
domingo, 22 de novembro de 2015
Soneto para um dia de chuva
(De um caderno de 2009, encontrado em meio a partituras velhas, papeis antigos e mais um monte de tralha, aqui transcrito para que não se perca.)
A chuva cai como quem diz
que vão-se embora tuas quarta-feiras de sol
As tardes, tempestades e mais um rol
de incontáveis motivos pra ser feliz
E é verdade que o relicário da minha memória
desconhece toda a glória dos dias que virão
Meu amor, é infinto, -- mais infinito que ontem
E muito mais forte que qualquer tufão
Mas ainda que chova durante a estiagem
e que fluam rios feitos de pretensão
Pouco se compara
à saudade que vou ter
das tempestades de verão
que só caíam em tua homenagem.
(13.01.2010, às 4am)
A chuva cai como quem diz
que vão-se embora tuas quarta-feiras de sol
As tardes, tempestades e mais um rol
de incontáveis motivos pra ser feliz
E é verdade que o relicário da minha memória
desconhece toda a glória dos dias que virão
Meu amor, é infinto, -- mais infinito que ontem
E muito mais forte que qualquer tufão
Mas ainda que chova durante a estiagem
e que fluam rios feitos de pretensão
Pouco se compara
à saudade que vou ter
das tempestades de verão
que só caíam em tua homenagem.
(13.01.2010, às 4am)
terça-feira, 10 de novembro de 2015
A ingenuidade dos meus 23 anos
Primeira Parte, Livro V, III: Os Irmãos Travam Amizade (pp. 234-235)
***
— Decerto, Ivã. Dimítri diz que és um túmulo. Eu digo que és um enigma. Tu o és ainda agora para mim, no entanto começo a compreender-te, desde esta manhã apenas.
— Que queres dizer? — Disse Ivã, rindo.
— Não te zangarás, pelo menos? — perguntou Aliócha, rindo também.
— E então?
— Então, descobri que és um rapaz semelhante a todos os outros, aos 23 anos, um rapaz bem viçoso, bem gentilmente ingênuo, um verdadeiro fedelho, em uma palavra. Minhas palavras não te ofendem?
— Pelo contrário, estou admirado duma coincidência — exclamou Ivã, com ímpeto. — Acreditarias que desde nossa entrevista desta manhã só penso na ingenuidade dos meus 23 anos, e é por isso que começas, como se o tivesse adivinhado? Sabes o que que dizia a mim mesmo ainda há pouco? Se não tivesse mais fé na vida, se duvidasse duma mulher amada, da ordem universal, persuadido ao contrário de que tudo não é senão um caos infernal e maldito e estivesse eu preso dos horrores da desilusão – mesmo então quereria viver ainda assim. Depois de ter bebido na taça encantada, só a deixaria uma vez esgotada. Aliás, perto dos trinta anos, pode ser que sinta saudade dela, mesmo inacabada, e irei... Não sei aonde. Mas, até os trinta anos, tenho a certeza, minha mocidade triunfará de tudo, do desencanto, do desgosto de viver. Muitas vezes tenho perguntado a mim mesmo se haveria no mundo um desespero capaz de vencer em mim esse furioso apetite de viver, inconveniente talvez; e penso que ele não existe, pelo menos antes de trinta anos. Esta sede de viver é chamada de vil por certos moralistas catarrentos e tuberculosos, sobretudo por poetas. É verdade que é um traço característico dos Karamázovi, essa sede de viver à qualquer preço; encontra-se em ti, mas por que haveria de ser vergonhosa? Há ainda muita força centrípeta em nosso planeta, Aliócha. Quer-se viver, e eu vivo, mesmo a despeito da lógica. Não creio na ordem universal, pois seja; mas amo os brotos tenros na primavera, o céu azul, amo certas pessoas, sem saber por quê; Amo o heroísmo, no qual talvez tenha deixado de crer desde muito tempo, mas que venero por hábito. Eis que te trazem a sopa de peixe. Bom apetite. É excelente, preparam-na bem aqui. Quero viajar pela Europa, Aliócha. Sei que não encontrei lá senão um cemitério, mas quão querido! Queridos mortos nele repousam, cada pedra atesta a vida ardente deles, sua fé apaixonada nos seus ideais, sua luta pela verdade e pela ciência. Oh! Cairei de joelhos diante daquelas pedras, beijá-las-ei, derramando lágrimas. Convencido, aliás, intimamente, de que tudo aquilo não é senão um cemitério e nada mais. E não serão lágrimas de desespero, mas de felicidade. Embriago-me com meu próprio enternecimento. Gosto dos brotos tenros da primavera e do céu azul. A inteligência e a lógica não entram nisso absolutamente, é o coração que ama, é o ventre, gosta-se de suas primeiras forças juvenis... Compreendes tu alguma coisa dessa minha arenga, Aliócha? — E Ivã pôs-se a rir.
— Compreendo por demais, Ivã; desejar-se ia amar pelo coração e pelo ventre, como bem o disseste. Estou encantado com esse teu ardor de viver. Penso que se deve amar a vida acima de tudo.
— Amar a vida, em vez do sentido da vida?
— Decerto. Amá-la antes de raciocinar, sem lógica, como dizes; então somente compreender-se-á o sentido dela. Eis o que entrevejo desde muito tempo. A metade de tua tarefa está realizada e adquirida, Ivã: amas a vida. Ocupate- com a segunda parte, é a salvação.
— Estás muito apressado em salvar-me, talvez não esteja eu ainda perdido. Em que consiste essa segunda parte?
— Em ressuscitar teus mortos, que estão talvez ainda vivos. Dá-me chá. Estou satisfeito com nossa conversa, Ivã.
— Vejo que estás de veia. Gosto dessas professions de foi, da parte de um noviço. Sim, tens firmeza, Alieksiéí. É verdade que queres deixar o mosteiro?
— Sim, meu stáriets me envia para o mundo.
(...)
***
[Disponível em: http://goo.gl/El2dVI]
quinta-feira, 25 de dezembro de 2014
Paul Verlaine - Clair de Lune
Sua alma é uma paisagem escolhida
aonde vão mascarados e bergamascos
a tocar o alaúde e dançar e quase
tristes debaixo de seus trajes fantásticos.
Todos cantam num tom menor
sobre amor vitorioso e a vida oportuna
Eles não parecem crer em sua felicidade
e sua canção se mistura ao luar.
Ao calmo luar, triste e belo,
que faz sonhar as avas nas árvores
e os jatos d'água soluçarem em êxtase,
Altas fontes esbeltas entre estátuas de mármore.
Votre âme est un paysage choisi
Que vont charmant masques et bergamasques
Jouant du luth et dansant et quasi
Tristes sous leurs déguisements fantasques.
Tout en chantant sur le mode mineur
L'amour vainqueur et la vie opportune
Ils n'ont pas l'air de croire à leur bonheur
Et leur chanson se mêle au clair de lune,
Au calme clair de lune triste et beau,
Qui fait rêver les oiseaux dans les arbres
Et sangloter d'extase les jets d'eau,
Les grands jets d'eau sveltes parmi les marbres.
aonde vão mascarados e bergamascos
a tocar o alaúde e dançar e quase
tristes debaixo de seus trajes fantásticos.
Todos cantam num tom menor
sobre amor vitorioso e a vida oportuna
Eles não parecem crer em sua felicidade
e sua canção se mistura ao luar.
Ao calmo luar, triste e belo,
que faz sonhar as avas nas árvores
e os jatos d'água soluçarem em êxtase,
Altas fontes esbeltas entre estátuas de mármore.
***
Votre âme est un paysage choisi
Que vont charmant masques et bergamasques
Jouant du luth et dansant et quasi
Tristes sous leurs déguisements fantasques.
Tout en chantant sur le mode mineur
L'amour vainqueur et la vie opportune
Ils n'ont pas l'air de croire à leur bonheur
Et leur chanson se mêle au clair de lune,
Au calme clair de lune triste et beau,
Qui fait rêver les oiseaux dans les arbres
Et sangloter d'extase les jets d'eau,
Les grands jets d'eau sveltes parmi les marbres.
segunda-feira, 18 de agosto de 2014
"If", de Roger Waters
If I were a swan, I'd be gone.
If I were a train, I'd be late.
And if I were a good man,
I'd talk with you
More often than I do.
- "Atom Heart Mother" (1970)
If I were a train, I'd be late.
And if I were a good man,
I'd talk with you
More often than I do.
- "Atom Heart Mother" (1970)
“As regras e formas do discurso prático geral”, por Robert Alexy
1. AS REGRAS FUNDAMENTAIS
(1.1) Nenhum falante pode contradizer-se.
(1.2) Todo falante só pode afirmar aquilo em que ele mesmo acredita.
(1.3) Todo falante que aplique um predicado F a um objeto A deve estar disposto a aplicar F também a qualquer objeto igual a A em todos os aspectos relevantes.
(1.3’) Todo falante só pode afirmar os juízos de valor e de dever que afirmaria dessa mesma forma em todas as situações em que afirme que são iguais em todos os aspectos relevantes.
(1.4) Diferentes falantes não podem usar a mesma expressão com diferentes significados.
2. AS REGRAS DE RAZÃO
(2) Todo falante deve, se lhe é pedido, fundamentar o que afirma, a não ser que possa dar razões que justifiquem negar uma fundamentação.
(2.1) Quem pode falar pode tomar parte no discurso.
(2.2)
(a) Todos podem problematizar qualquer asserção.
(b) Todos podem introduzir qualquer asserção no discurso.
(c) Todos podem expressar suas opiniões, desejos e necessidades.
3. AS REGRAS DA CARGA DA ARGUMENTAÇÃO
(3.1) Quem pretende tratar a uma pessoa A de maneira diferente de uma pessoa B está obrigado a fundamentá-lo.
(3.2) Quem ataca uma proposição ou uma norma que não é objeto da discussão deve dar uma razão para isso.
(3.3) Quem aduziu um argumento está obrigado a dar mais argumentos em caso de contra-argumentos.
(3.4) Quem introduz no discurso uma afirmação ou manifestação sobre suas opiniões, desejos ou necessidades que não se apresentem como argumento a uma manifestação anterior tem, se lhe for pedido, de fundamentar por que tal manifestação foi introduzida na afirmação.
4. AS FORMAS DE ARGUMENTO
(...)
5. AS REGRAS DE FUNDAMENTAÇÃO
(5.1.1) Quem afirma uma proposição normativa que pressupõe uma regra para a satisfação dos interesses de outras pessoas deve aceitar as consequências de dita regra também no caso hipotético de ele se encontrar na situação daquelas pessoas.
(5.1.2) As consequências de cada regra para a satisfação dos interesses de cada um devem ser aceitas por todos.
(5.1.3) Toda regra deve ser ensinada de forma aberta e geral.
(5.2.1) As regras morais que servem de base às concepções morais do falante devem resistir à comprovação de sua gênese histórico-crítica. Uma regra moral não resiste a tal comprovação:
a) Se originariamente se pudesse justificar racionalmente, mas perdeu depois sua justificação, ou
b) Se originariamente não se pôde justificar racionalmente e não se podem apresentar também novas razões suficientes.
(5.2.2) As regras morais que servem de base às concepções morais do falante devem resistir à comprovação de sua formação histórica individual. Uma regra moral não resiste a tal comprovação se se estabeleceu com base apenas em condições de socialização não justificáveis.
(5.3) Devem ser respeitados os limites de realizabilidade faticamente dados.
***
Tirei daqui:
- ALEXY, Robert. Teoria da Argumentação jurídica : a teoria do discurso racional como teoria da fundamentação jurídica / Robert Alexy ; tradução Zilda Hutchinson Schild Silva ; revisão técnica da tradução e introdução à edição brasileira Claudia Toledo. – 3.eb. – Rio de Janeiro : Forense, 2011, pp. 287 a 289.
quinta-feira, 3 de julho de 2014
"Shake the Dust", de Anis Mojgani
This is for the fat girls.
This is for the little brothers,
This is for the school yard wimps and the childhood bullies that tormented them,
For the former prom queen and for the milk crate ball players,
For the nighttime cereal eaters,
And for the retired elderly Walmart store front door greeters:
Shake the dust.
This is for the benches and the people sitting upon them
For the bus drivers who drive a million broken hymns
For the men who have to hold down three jobs simply to hold up their children
For the nighttime schoolers
And for the midnight biker riders who are trying to fly:
Shake the dust.
This is for the two year olds
Who cannot be understood because they speak half English and half God
Shake the dust
For the boys with the beautiful sisters
Shake the dust
For the girls with the brothers who are going crazy
For those gym class wallflowers and the twelve year olds afraid of taking public showers
For the kid who is always late to class because he forgets the combination to his locker
For the girl who loves somebody else:
Shake the dust.
This is for the hard men who want love but know that it won't come
For the ones who are forgotten
The ones the amendments do not stand up for
For the ones who are told speak only when you are spoken to
And then are never spoken to
Speak every time you stand so you do not forget yourself
Do not let one moment go by that doesn't remind you
That your heart, it beats 900 times every single day
And that there are enough gallons of blood to make everyone of you oceans
Do not settle for letting these waves that settle
And for the dust to collect in your veins
This is for the celibate pedophile who keeps on struggling
For the poetry teachers and for the people who go on vacation alone
For the sweat that drips off of Mick Jaggers' singing lips
And for the shaking skirt on Tina Turner's shaking hips
For the heavens and for the hells through which Tina has lived
This is for the tired and for the dreamers,
For those families that want to be like the Cleavers with perfectly made dinners
And songs like Wally and the Beaver
This is for the bigots, for the sexists, and for the killers
And for the big house pin sentenced cats becoming redeemers
And for the springtime that somehow seems to show up right after every single winter,
This is for everyone of you
Make sure that by the time the fisherman returns you are gone
Because just like the days I burn at both ends
And every time I write, every time I open my eyes
I'm cutting out parts of myself simply to hand them over to you
So shake the dust.
And take me with you when you do for none of this has ever been for me
All that pushes and pulls
And pushes and pulls
And pushes and pulls
It pushes for you
So, grab this world by its clothespins
And shake it out again and again
And jump on top and take it for a spin
And when you hop off shake it again
For this is yours, this is yours
Make my words worth it
Make this not just some poem that I write
Not just some poem like just another night that sits heavy above us all
Walk into it, breathe it in, let it crash through the halls of your arms
Like the millions of years of millions poets
Coursing like blood, pumping and pushing
Making you live, shaking the dust
So when the world knocks at your front door
Clutch the knob tightly and open on up
And run forward and far into its widespread, greeting arms
With your hands outstretched before you
Fingertips trembling, though they may be.
https://www.youtube.com/watch?v=0qDtHdloK44
"Necrológio dos desiludidos do amor", de Carlos Drummond de Andrade
Os desiludidos do amor
estão desfechando tiros no peito.
Do meu quarto ouço a fuzilaria.
As amadas torcem-se de gozo.
Ó, quanta matéria para os jornais.
Desiludidos mas fotografados,
escreveram cartas explicativas,
tomaram todas as providências
para o remorso das amadas.
Pum pum pum — adeus, enjoada.
Eu vou, tu ficas, mas nos veremos
seja no claro céu ou turvo inferno.
Os médicos estão fazendo a autópsia
dos desiludidos que se mataram.
Que grandes corações eles possuíam.
Vísceras imensas, tripas sentimentais
e um estômago cheio de poesia.
Agora vamos para o cemitério
levar os corpos dos desiludidos
encaixotados competentemente
(paixões de primeira e segunda classe).
Os desiludidos seguem iludidos,
sem coração, sem tripas, sem amor.
Única fortuna, os seus dentes de ouro
não servirão de lastro financeiro
e cobertos de terra perderão o brilho
enquanto as amadas dançarão um samba
bravo, violento, sobre a tumba deles.
terça-feira, 10 de junho de 2014
Todos os amores são tóxicos
O lado bom de ter priminhos que são mais ou menos velhos, ali naquele limiar caótico no fim da infância, são as suas conversas quase lúcidas. Exemplo memorável:
— E se o oxigênio na verdade for venenoso, mas ele demora o tempo de uma vida inteira para matar?
Silêncio e reticências. O pequeno, loirinho e com cara de quem está cheio das ideias, olha confuso para mim. É isso mesmo?
Vamos ao nosso oráculo. Sim, é bem assim mesmo, pelo que diz o Google. Quer dizer, mais ou menos. Aparentemente isso se chama teoria dos radicais livres, mas vai explicar isso para uma criança. Ou uma quase criança.
— Acho que vocês não precisam se preocupar com isso agora. Não querem jogar Xbox? Estou com dois controles—
Nem termino de dizer a frase e eles já começam a trocar tapas para ver quem joga primeiro, ainda que tenhamos dois controles. Em tempo suficiente ficamos todos distraídos com a partida, mas agora respiro com cautela. Sinto cada suspiro me roubar um pouco de vida. (E se a vida valer tanto quanto a companhia dos priminhos, então ela deve ser mesmo gasta com parcimônia, mas essa é outra história.)
***
Suspiros. Profundos suspiros.
Eis o dia dos namorados, não muito tempo depois dessa conversa. Sabemos que é junho nas ruas movimentadas do centro da cidade e nos centros comerciais: de um lado, vê-se buquês de rosas e gérberas, presentes elaborados, e falas ensaiadas. A ocasião pede romantismo, portanto os suspiros são apaixonados.
De outro lado, o ar é contaminado pelos suspiros céticos e quase aborrecidos de veteranos que colecionam nomes de amantes que não deram certo. O dia dos namorados é talvez ocasião para fingir que o amor é uma invenção, ou para juntar-se a outros veteranos para catalogar desamores e analisá-los minuciosamente.
E no meio de tudo isso, os entendidos debatem os relacionamentos que valem a pena ou não. Os relacionamentos coloridos, cheios de energia, e que são sopros de vitalidade — e os tóxicos.
***
Uma de minhas caronas se torna um desses debates:
— Sabe o que é, João? O problema é que esse meu “ex” aí achava que a felicidade dele dependia de mim. Isso me sugava.
Estou no banco de trás, então posso deixar a motorista e o carona responderem por mim. Sei que é uma boa ideia, porque o carona sente profunda empatia.
— Foda.
— Pois é. Não tinha mais como. Eu já nem respondia mais as mensagens dele.
Os bancos do carro ouvem comigo a versão nova de uma velha história. Desamores tão sem sentido, e a gente assim tão down.
— Mas também não tem como continuar um relacionamento assim de qualquer forma.
— Não, não tem. Era tudo meio tóxico.
“Tóxico”, ela diz. Lembro dos meus priminhos, e penso naquela história do oxigênio. Talvez os relacionamentos não sejam tóxicos. Quem sabe o amor que os nutre seja, assim como o ar que a gente respira, e os relacionamentos apenas envelhecem. As mudanças e intempéries acumuladas viram rugas na paixão cansada e com olheiras, mas ela permanece bela.
A motorista e o carona se calam.
Ouço suspiros, e quero alertá-los dos males velados e silenciosos do ar que respiramos, mas o guardo para mim. Também não alerto ninguém para os males do amor, sempre assim tão tóxico, porque de nenhum outro modo sufocar é tão libertador.
E se até o oxigênio, indiscutivelmente vital, também nos consome e nos tira a vida depois de tempo suficiente, então só nos resta flertar com sua sutil toxicidade — e esperar que dure para sempre o ar que enche nossos pulmões.
Arcade Fire - The Suburbs & The Suburbs (continued)
***
1.
In the suburbs I
I learned to drive
And you told me we'd never survive
Grab your mother's keys we're leavin'
(...)
So can you understand?
Why I want a daughter while I'm still young
I wanna hold her hand
And show her some beauty
Before this damage is done
But if it's too much to ask, it's too much to ask
Then send me a son
Under the overpass
In the parking lot we're still waiting
It's already passed
So move your feet from hot pavement and into the grass
Cause it's already passed
It's already, already passed!
Sometimes I can't believe it
I'm movin' past the feeling
In my dreams we're still screamin'
We're still screamin'
***
2.
If I could have it back
All the time that we wasted
I'd only waste it again
If I could have it back
You know I'd love to waste it again
Waste it again and again and again
(...)
segunda-feira, 5 de maio de 2014
"Direct Orders", by Anis Mojgani
You have been given a direct order to rock the fuck out.
Rock out like you were just given the last rock and roll record on earth and the minutes are counting down to flames.
Rock out like you just won both showcase showdowns.
Rock out like the streets are empty except for you, your bicycle, and your headphones.
Rock out like your lips, which are placed onto a breakdancing muse with legs that go all the way up.
Rock out like Publishers Clearing House is ringing your front door.
Rock out like you’ll never have to open a textbook again.
Rock out like you get paid to disturb the peace.
Rock out like music is all that you got.
Rock out like you’re standing on a rooftop and the city’s as loud and glowing as a river flowing below you.
Rock out like the plane is going down, and there are 120 people on board, and 121 parachutes.
Rock out like the streets and the books are all on fire and the flames can only be extinguished by doin’ the electric slide.
Rock out like it’s Saturday afternoon and Monday was a national holiday.
Rock out like somebody’s got a barrel pointed at your temple saying ‘Rock out like your life depended on it, fool,‘ because it does.
Rock out like your eyes are fading but you still got your ears.
But you don’t know for how long so rock out like 5 o’clock time, meant pop-and-lock time.
Rock out like you got a pants full of tokens and nothing to do but everything.
Rock out like you are the international ski-ball champion of the entire universe.
Rock out like you just escaped an evil orphanage to join a Russian circus.
Rock out like your hero is fallen and you are spinning your limbs until they burst into a burning fire of remembrance.
Rock out like you are enslaved in the south and dancing is all that you have to know who you are.
Rock out like your dead grandfather just came back to take a drive with you in your new car.
Rock out like the table is full.
Rock out like the neighbors are away.
Rock out like the walls won’t fall but, damn, you’re going to die trying to make them.
Rock out like the stereo’s volume knob is the figure 8 of infinity on it instead of merely numbers.
Rock out like it’s raining outside and you’ve got a girl to run through it with.
Rock out like you’re playing football! Football in the mud and your washing machine is not broken.
Rock out like you threw your window open on your honeymoon because you want the whole world to know what love is.
Rock out like you just got a book published.
Rock out like you just went to your high school reunion to find everyone, even the women, are all overweight and bald, except for the former homecoming queen, who has just been divorced by her impotent husband and who only has eyes for... YOU!
Rock out like you just got a date with Heidi Klum.
Rock out like a shadow of a man passes behind you, drops you to your knees.
You’re buckling in sweat, cold metal’s pushed to your forehead, the trigger’s pulled and the gun jams. Rock out like you got an empty appointment book, and a full tank of gas.
Rock out like Jimi has returned carrying brand new guitar strings.
Rock out like the mangos are in season.
Rock out like the record player won’t skip.
Rock out like this was the last weekend, like these were the last words, like you don’t ever want to forget how.
Rock out like you were just given the last rock and roll record on earth and the minutes are counting down to flames.
Rock out like you just won both showcase showdowns.
Rock out like the streets are empty except for you, your bicycle, and your headphones.
Rock out like your lips, which are placed onto a breakdancing muse with legs that go all the way up.
Rock out like Publishers Clearing House is ringing your front door.
Rock out like you’ll never have to open a textbook again.
Rock out like you get paid to disturb the peace.
Rock out like music is all that you got.
Rock out like you’re standing on a rooftop and the city’s as loud and glowing as a river flowing below you.
Rock out like the plane is going down, and there are 120 people on board, and 121 parachutes.
Rock out like the streets and the books are all on fire and the flames can only be extinguished by doin’ the electric slide.
Rock out like it’s Saturday afternoon and Monday was a national holiday.
Rock out like somebody’s got a barrel pointed at your temple saying ‘Rock out like your life depended on it, fool,‘ because it does.
Rock out like your eyes are fading but you still got your ears.
But you don’t know for how long so rock out like 5 o’clock time, meant pop-and-lock time.
Rock out like you got a pants full of tokens and nothing to do but everything.
Rock out like you are the international ski-ball champion of the entire universe.
Rock out like you just escaped an evil orphanage to join a Russian circus.
Rock out like your hero is fallen and you are spinning your limbs until they burst into a burning fire of remembrance.
Rock out like you are enslaved in the south and dancing is all that you have to know who you are.
Rock out like your dead grandfather just came back to take a drive with you in your new car.
Rock out like the table is full.
Rock out like the neighbors are away.
Rock out like the walls won’t fall but, damn, you’re going to die trying to make them.
Rock out like the stereo’s volume knob is the figure 8 of infinity on it instead of merely numbers.
Rock out like it’s raining outside and you’ve got a girl to run through it with.
Rock out like you’re playing football! Football in the mud and your washing machine is not broken.
Rock out like you threw your window open on your honeymoon because you want the whole world to know what love is.
Rock out like you just got a book published.
Rock out like you just went to your high school reunion to find everyone, even the women, are all overweight and bald, except for the former homecoming queen, who has just been divorced by her impotent husband and who only has eyes for... YOU!
Rock out like you just got a date with Heidi Klum.
Rock out like a shadow of a man passes behind you, drops you to your knees.
You’re buckling in sweat, cold metal’s pushed to your forehead, the trigger’s pulled and the gun jams. Rock out like you got an empty appointment book, and a full tank of gas.
Rock out like Jimi has returned carrying brand new guitar strings.
Rock out like the mangos are in season.
Rock out like the record player won’t skip.
Rock out like this was the last weekend, like these were the last words, like you don’t ever want to forget how.
terça-feira, 29 de abril de 2014
Linhas mortas
Deadlines,
Deadlines,
Deadlines.
Gatos assalariados,
leões da receita,
e tigres de bengala:
Felinos corporativos
têm vidas demais.
Deadlines,
Deadlines.
Gatos assalariados,
leões da receita,
e tigres de bengala:
Felinos corporativos
têm vidas demais.
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014
"Ghost of Corporate Future", por Regina Spektor
A man walks out of his apartment,
It is raining, he's got no umbrella
He starts running beneath the
awnings,
Trying to save his suit,
Trying to save his suit.
Trying to dry, and to dry, and to
dry but no good
When he gets to the crowded subway
platform,
He takes off both of his shoes
He steps right into somebody's fat
loogie
And everyone who sees him says,
"Ew."
Everyone who sees him says,
"Ew."
But he doesn't care,
'Cause last night he got a visit
from the
Ghost of Corporate Future
The ghost said, "Take off both
your shoes
Whatever chances you get
Especially when they're wet."
He also said,
"Imagine you go away
On a business trip one day
And when you come back home,
Your children have grown
And you never made your wife moan,
Your children have grown
And you never made your wife
moan."
"And people make you nervous
You'd think the world is ending,
And everybody's features have
somehow started blending
And everything is plastic,
And everyone's sarcastic,
And all your food is frozen,
It needs to be defrosted."
"You'd think the world was
ending,
You'd think the world was ending,
You'd think the world was ending
right now.
You'd think the world was ending,
You'd think the world was ending,
You'd think the world was ending
right now."
"Well maybe you should just
drink a lot less coffee,
And never ever watch the ten o'clock
news,
Maybe you should kiss someone nice,
Or lick a rock,
Or both."
"Maybe you should cut your own
hair
'Cause that can be so funny
It doesn't cost any money
And it always grows back
Hair grows even after you're
dead"
"And people are just people,
They shouldn't make you nervous.
The world is everlasting,
It's coming and it's going.
If you don't toss your plastic,
The streets won't be so plastic.
And if you kiss somebody,
Then both of you'll get
practice."
"The world is everlasting
Put dirtballs in your pocket,
Put dirtballs in your pocket,
And take off both your shoes.
'Cause people are just people,
People are just people,
People are just people like you.
People are just people,
People are just people,
People are just people like
you."
The world is everlasting
It's coming and it's going
The world is everlasting
It's coming and it's going
It's coming
and it's going
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
Una invitación para entrar a tu vida (ou ‘o eclipse de olhos verdes’)
Todas as quintas-feiras, depois do almoço e antes de voltar ao escritório, nós vamos ao mesmo café onde o brigadeiro é servido de graça com o espresso, e onde o garçonzinho de gravata borboleta se confunde jocosamente com pronomes de tratamento. Não, é sério: uma parte da nossa diversão é receber o ‘bom dia, senhores’ dele quando entramos, para depois irmos embora com o seu ‘valeu bróder’ meio gaiato.
Enfim, eis que Lotte entra no café de novo. Observando-a se aproximar da mesa, ouço, como nas outras semanas, o desenrolar de todas as palavras que eu direi, assim como todas as respostas que ela me dará. A cena desenreda-se de imediato na minha cabeça — de novo.
Oi, eu vou dizer.
Olá, ela vai dizer com tom doce.
E aí passaremos a conversar, e será bem agradável. Vou elogiar o seu brinco e a blusa lilás. Aí ela dirá algo pequeno, inócuo, alguma sacadinha de me fazer sorrir de lado, algo sobre mim, algo que eu ainda não havia contado a ela. Alguma coisa impossível.
Pois então. Fico aqui sentado, mexendo com a colherinha meu café amargo e observando-a debruçada no balcão e convenientemente inclinada. Café com leite e bombom de morango.
“Café com leite e bombom de morango”, ela diz, como quem quase ordena e comanda a senhorinha no caixa. Dá um passo ao lado para que a fila ande, e folheia uma das revistas sobre a mesinha onde fica o açúcar, os talheres de plástico e os guardanapos.
O mundo, quase como um relógio. Aperta-se o botão, troca-se mais um filtro da máquina de café, e açúcar ou adoçante—
“Açúcar ou adoçante?”
“Nenhum dos dois, obrigado.”
“Ok, querida.”
As coisas acontecem, tudo na sua ordem, com os botões apertados, resultados antecipados e os padrões perceptíveis, de tal modo que, se você não jogar uma pedra nas engrenagens ou forçar a barra, tudo vai funcionar perfeitamente. Não haverá nada que o impeça de dissimular que tem algo profunda e fundamentalmente errado no meio de tudo isso.
Mas é besteira.
É besteira porque Lotte voltou a se sentar. Lotte, com seu café com leite e o bombom comido em mordidas ínfimas.
Charlotte é seu nome inteiro, na verdade. Não conheço ninguém como Charlotte, tampouco outra pessoa com o mesmo nome, para falar a verdade. Deixei-me enlevar tantas vezes pela pequena mancha redonda preta que orbita a íris castanho-esverdeada ao redor de sua pupila, que já não creio mais em outro destino que não o fundo de seus olhos. E também o sorriso desenhado, contraponto às mechas de cabelo castanhas e a pele pálida. Ah, Charlotte, que nem sabe disto, mas como senti sua falta.
Hoje o assunto é palpitante. Ela mexe a bolsa, descuidada com a conversa, perguntando o que acho sobre ‘amor’. Assim mesmo, sei lá, ‘o que você acha sobre amor’. Logo em uma quinta-feira tão atribulada. Minha cabeça continua no arquivo do escritório e na cara amarrada dos clientes céticos, e eu tendo que pensar em algo inteligente para dizer.
Eu não digo nada muito de imediato, então Lotte volta sua atenção para a silenciosa superfície da mesa, já que cansou de procurar algo que evidentemente não está na bolsa. Para dar uma resposta, vejo que meu lado direito cartesiano um tanto boring toma a frente, porque desenho no guardanapo um gráfico com ‘sentimento’ e ‘’tempo’ nos eixos, traçando curvas a que chamo de ‘paixão’ e ‘amor’. Uma coisa sucede a outra naturalmente, não?
“Não, não; ‘cê tá entendendo tudo errado. Amor não segue muito uma lógica. E mais importante, amor não é um sentimento.” (E ela não liga se a conversa não nos levará a lugar nenhum, se é clichê ou pretensiosa). “Amor são ações”, ela afirma com tom muito entendido e didático. “E não dá pra amar assim sem fazer nada.”
Ela morde o pedacinho que resta do bombom, e termina o café. Amor são ações, veja só.
“Vai mais um docinho aí, senhores?”, pergunta o garçom, que surge como um Mestre dos Magos de gravata borboleta e munido de bandeja de metal. Lógico —sempre tem mais espaço para um docinho, e é o que dou a entender com minha cara de formiga sorridente.
Já é quase hora de ir embora, ao menos para evitar que o papel colado na parede da sala onde trabalho, indicando os horários de entrada e saída dos funcionários, explicite ao chefinho no final do mês que estendi o almoço além da conta. Confiro o relógio do celular.
“Vamo aí, senhores?”, Lotte pergunta.
Sim, vamos. Ela sorri, e essa fração de segundos se arrasta um pouco mais do que todas as outras, como se o tempo ficasse meio devagar de supetão. Eu vou sorrir de volta, ela vai sorrir mais um pouco, a gente vai se levantar pra pagar e aceitar a balinha de canela que nos oferecerão no caixa. Charlotte se despedirá sem dizer nada, só com os seus olhos e o sublime eclipse interno da íris esquerda, e vou dizer ‘até semana que vem’. Ela vai dizer ‘até’, daremos uma pausa em silêncio, e aí iremos embora em direções opostas, cada um com uma música na cabeça.
“Amor não é um sentimento”, e não é nem a conclusão dela que surpreende tanto, e sim como ou quando chegamos nesse ponto. Quinta-feira por quinta-feira, um cafezinho com bombom por vez… quiçá fui de fato chegando mais perto da lua que tangencia sua pupila — e parece que entrei logo em órbita do espaço de mim mesmo. Aonde isso vai dar eu não sei, mas se for preciso eu vou lá, ansioso para ver o que me espera.
O que importa é que o quadro que eles têm lá no cafezinho, solitário na parede amarelo-torrada, está com mais razão que imaginei. “A veces um café es la invitación para que alguien entre a tu vida”, assim mesmo em espanhol. Quem diria.
quarta-feira, 25 de setembro de 2013
a vastidão de todas as almas em três letras banais
Os ingleses e americanos ganham mais uma vez. Os anglófonos desse mundo, ignorantes em termos de ‘saudade’ por uma tecnicidade linguísica – carecem de equivalente para seus idiomas –, são donos do awe, e nos superam com facilidade em termos de palavras intraduzíveis. Awe é o pior de nossos medos e também a dádiva mais prodigiosa; a sensação de ruína e a glória; a satisfação aparentemente eterna que brinca com nossa noção de tempo por seu êxtase constante ou delírio assustador. Três letras bastaram para admiração, espanto, rapto dos sentidos, estupefação e enlevo, como se toda a dualidade inevitável da vida coubesse num substantivo banal.
E nós aqui, afoitos com dicionários analógicos da língua portuguesa, só para ver se aparece algum equivalente.
***
Fiquei vendo na TV outro dia uma longa reportagem sobre a Cracolândia em São Paulo e seu equivalente no Rio de Janeiro. O repórter grisalho e sua colega de ascendência japonesa aventuravam-se pelas ruas ocupadas por maltrapilhos agressivos e desesperados, delirando nas suas pedras de crack e deixando a química da droga aliviar o martírio de suas mentes. Um sonho dantesco de indivíduos amaldiçoados pelo terror da condição social e tantos outros que cairam ali por motivos não explicadas pelos jornalistas.
Senhor deus dos desgraçados! Vê só lá pelas tantas o repórter exaurir sua fonte nos focos principais da reportagem para buscar viciados fora da cracolândia. Havia um casal de drogados jogados sob a ponte que fitava o nada e mexia a cabeça de modo meio demente. O homem está com a cara borrada para poupar sua identidade já há tanto tempo perdida, mas a mulher não. Ela é abordada pelo homem grisalho e bem vestido que conduz a entrevista.
Ele se aproxima com cautela. Ela está desconfortável pela sua presença e da câmera, e tenta fingir que sua situação é perfeitamente normal. Ao ser perguntada por que está triste naquele dia, ela desconversa. “Triste, eu? Por quê?”, mas há insistência. Ela rebate as inquisições com comentários sarcásticos, mas começa a lacrimejar. “Porque você chora se está feliz?”, questiona o repórter. “Sinto falta”, e treme débil com suas mãos magras e os poucos dentes na boca, e não consegue completar o que ia dizer. “Sinto falta da minha vida, sabe”, e chora à beça. “Meus filhos, a terra de onde venho—”, mas nisso intervém o seu companheiro, que se opõe violentamente à presença da equipe de reportagem ali. “Vão ficar falando merda aí, sai fora, meo.”
Gaiato, o repórter leva embora a mochila, e continua sua missão ao buscar o cara que foi assaltado pelos dois e teve seus bens subtraídos. Essa parte, no entanto, é extra: o awe terrível de uma habitante exilada da Cracolândia fora destilado com sucesso. “Um drama do Brasil, questão de saúde pública”, diz o estudante dono da mochila. Enquanto isso, os telespectadores afoitos não conseguem aceitar bem o que viram e se contorcem na cadeira de casa. Questão de saúde pública, sim, pode ser — mas não sabem nem descrever o que os acertou. Falassêmos inglês, estariam poupando palavras e sorveriam desgostosos o awe que se transmitia pela televisão.
Após os comerciais, volta ao último bloco a reportagem. A equipe de jornalistas se divide em dois para reencontrar viciados já entrevistados em edições antigas, de vários anos atrás, do mesmo programa: a moça nipônica, no Rio de Janeiro, e o sujeito grisalho, em São Paulo. Ela vai atrás de uma criança, que entrou nessa porque a família toda já usava o crack, e ele vai buscar uma mulher que havia reconquistado a sobriedade no transcorrer da última reportagem.
Essa parte começa com uma retrospectiva: a mulher, morando em uma favela junto com o pai e o resto da família, descrita como boa gente, cercada de pessoas boas e boas intenções. Em algum momento ela começa a usar a droga, passa a morar na rua, e se perde na vida. Vários takes do pai procurando por ela passam em seguida, intercalados com a visão dele construindo um sobradinho só para ela. Aí ele consegue recuperá-la. A usuária está acabada, mas foi reencontrada e volta assim a dormir em casa. A moça, agora de aparência tão lamentável, vai ao centro de recuperação. Cortam para imagens de meses depois: em uma igreja, morrendo afogada no seu próprio mar de fé, ela chora intensamente. O pai também chora, e todos se emocionam. Dão a ele um microfone: “dá vontade de chorar, de rir, eu não sei! Eu nunca estive tão feliz, não consigo nem entender isso aí. Só pode ser coisa de Deus!”
A audiência respira feliz com o pólo oposto daquela sensação de putridão da droga que vinha sendo descrito até então. Finda a retrospectiva, os jornalistas batem à porta do pai da moça: em que pé ficou aquela história? Por onde ela anda? O pai abre a porta já meio desesperançoso e cansado. Ah, pois é. Cansei. Tanto tempo e esforço para salvar minha filha… Voltou pra Cracolândia. (Ele lacrimeja.) Não sei mais o que fazer.
A equipe sai na mesma busca pela moça, e a encontram. O que aconteceu?, eles querem saber. Como é que você acabou voltando para a droga? Não tinha se recuperado? Ela não está afim de dar explicações. Diz que é doente, é viciada, tem um problema — e é isso aí. Recaiu, voltou, ta aí de novo.
Em uma última visita a esse pai que gostaria de ter qualquer motivo para não dar outra entrevista sobre a filha viciada, o repórter explica que a viu na Cracolândia na sexta feira anterior. Ele meio que repete o discurso, como quem diz que não adianta fazer todo esse auê — essa alma aí não vai ser salva.
Último quadro do dia: “falamos com seu pai”, dizem os repórteres para chamar a atenção. “E ele sente a sua falta. Disse que vai deixar um espacinho lá na casa dele para você, e você pode sempre voltar quando quiser…” Ela segura algumas pedras na mão, e os fita longamente. “Ah é?”, pergunta meio desolada. “Sim”, diz o repórter. “Pô, tamo junto”, ela conclui, longe da salvação do ano anterior e longe, na verdade, de qualquer salvação. Ela vai embora, caminhando de volta em direção a mais um grupo grande de pessoas como ela.
Termina o programa. É difícil de dormir com a memória da usuária de crack que chora diante do repórter. Há algum tipo de vastidão nessas pessoas, mas do mesmo tipo de vastidão que tem um abismo profundo. Há um medo intenso da profundidade, e a morte como problema e também como solução. E é o awe de que falo na sua polaridade confusa e pessimista. (“Maybe you should never ever watch the 10 o’clock news”!)
***
Mantenho-me ainda impressionado pela versatilidade bizarra da palavra. Logo “awe”, de som tão banal. Saudade soa muito melhor, sem dúvida, mas está presa a um aspecto só de um sentimento tão comum, nesse lado triste da ausência alheia. E o ”awe” transita de um lado para o outro – ora ‘desolação’, ora ‘fastio da alma’.
Eis a forma com que tornei a dormir depois, aliás. A vastidão percebida pelos nossos sentidos incrédulos deixa cicatrizes profundas na memória não só por conceber a difícil existência, por exemplo, da Cracolândia. Ela — e o ‘awe‘, por tabela — também está presente nos melhores momentos de beleza sublime, graça e em eventuais provas de paixão, quando não se sabe a diferença entre a dança e a dançarina.
A metáfora é pertinente, por sinal. Sempre lembro disso quando me dou conta que estou dançando em algum lugar. Esse é o outro exemplo, o mais leve: nunca soube me livrar desse temor engraçado que acompanha o momento antes de se soltar junto com a música, ainda que lembre com alegria anormal das vezes em que isso deu certo. É meio idiota também, é verdade. Mas o súbito receio de esquecer como se move ao som de uma canção qualquer é tenaz e persistente.
Explico, e rogo a presença da morena de voz cantada. Morena de voz cantada, perfume de flores, de intenso vicejo e coração (secretamente) selvagem, de rosto bonito e pés dançantes. Aí, aliás, é que está meu ponto: tenho certeza que é sublime a fluidez com que minha morena encarna os compassos, brincando com o corpo e me tomando em transe – e fazendo que não sabe disso, mas sei que sabe. Céus, como se compete com isso? Como dançar se, no deslumbre meio passional, até esqueço como se faz para andar?
E o awe, devolvendo o mérito para meus camaradas estadounidenses ou britânicos, resumindo todo esse micro-drama e apressando em muito os tropeços desse meu coração aflito, canta sua glória. Meu caro, diz ele, é uma questão de aceitar e desistir, ou render-se à noite que não te dá outra opção, e conviver pacificamente com sua felicidade.
As noites em que sou bem sucedido encerram-se em cenários de pistas de dança progressivamente mais vazias, e a morena me sorri. E o âmago da minha existência, assim com todo o seu exagero inerente, agradece em igual tom, sorridente e satisfeito. Não por dançar ou deixar de dançar per se, mas por ter testemunhado bossas e poemas de Vinicius tomarem vida na minha frente, justificando o Werther do Goethe, e me fazendo recorrer a todo o tipo de referência, mais ou menos bossal, para tentar entender e explicar como estou absolutamente tomado por essa sensação meio insana de paixão. Algo meio difícil de descrever, que não cabe nas minhas pupilas dilatadas ou na súbita vastidão de uma alma cética que, de repente, esquece da Cracolândia ou desses temas tão difíceis. Ali, atordoado, buscando palavras e você — “oi, babe!”, tão simples e sensacional. É óbvio que vou acabar fazendo gracejo.
"No que você está pensando?", você vai me perguntar. Eu teria que entrar nesse assunto dessa forma, assim longamente, mas não sei se você precisa ouvir tudo isso. Fosse eu inglês ou americano (ou mesmo canadense ou quem sabe australiano), resumiria inclinando a cabeça de leve e dizendo, só depois de uns dois segundos: “awe”.
***
Pensando bem, enfim vou concluir que a dualidade extensa e maluca dessa história toda é o seu próprio ponto positivo. Assim como não é necessariamente compatível viver a vida e, ao mesmo tempo, entendê-la, ainda que a dança e dançarina não se diferenciem entre si. A chuva, me disseram, soa como aplausos se você fechar os olhos, aliás. Mas, no fundo, são a mesma coisa.
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Eu nem sempre sei como dizer o que quero dizer, e frequentemente demoro muito para fazê-lo. Mas digo mesmo assim.
http://mundoderascunhos.blogspot.com.br/2013/06/far-too-many-postage-stamps-pt1.html
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