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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Maço ou carteira (3)


Durante a madrugada, entraram em minha casa dois homens vestindo longas túnicas com capuzes. Um deles está todo de branco, e o outro, todo de preto. Eles pararam ao lado de minha cama e ficaram me fitando até que eu acordasse e os encarasse assustadamente, ainda que eu não pudesse ver seus rostos. Tudo o que podia perceber além da aparência superficial eram suas respirações, lentas e profundas. Senti-me na urgência de levantar-me e suplicar indulgência pela minha inteira condição, que pareceu sempre inofensiva a qualquer um, mas eles eram inteiramente indiferentes às minhas reações.

Um deles cheirava fortemente a álcool, e o outro fedia à fumaça. Nessa podridão eles voltaram a se encarar, e após uma hora, saíram pela porta, como quem avisa que essa foi somente uma visita passageira. Definitivamente voltariam, ainda assim, como já voltaram antes. 

Soerguido na cama, passei a mão no rosto e percebi que estava sedado. Senti-me tonto, até. Perambulei pela casa, passeando em pensamentos desconexos. Contar histórias, um de meus passatempos favoritos, é na verdade uma forma superficialmente inteligente de escapismo, na esperança que a verdade injetada em cada um dos persongens ou das frases cuspidas no papel (e na tela do computador) refilta alguma verdade igualmente tangível na realidade. 

Aquele sujeito que encontrei no ônibus em Florianópolis, por exemplo: não sei seu nome, e tampouco sei com o que se parece agora. Evitei encarar seu rosto na ocasião em que nos encontramos para não parecer mal-educado, e agora não saberia achá-lo entre qualquer multidão. Mas fico às vezes olhando fotos da Beira-Mar e me pergunto com que olhos ele passeia por essa avenida tão viva e movimentada.

Se eu lhe desse em minha cabeça um ar satisfeito e garantidamente seguro, ficaria momentaneamente feliz  em perceber que seus próximos passos estarão vigiados por uma sorte sisuda e bem resolvida. "Ah, veja as nuvens que se formam sobre o horizonte quando o sol se põe", ele pensaria. "Adoro ver a cor laranja do fim de tarde conflitar com o azul restante do céu, até que eventualmente fique escuro demais para que se ouça a discussão entre essas cores intangíveis e só se perceba a lua no céu, sobre hoteis demaisadamente confortáveis" (de forma que seus hóspedes não consigam nem se dar conta que há alguma coisa além de roupas bonitas, biquinis cavados, tatuagens elaboradas e garrafas de cerveja belga). 

Prédios tumultuando a avenida que outrora foi sua residência e terra de paz, mar e brisa indiscretamente aveludada, atordoariam sua percepção romântica de um pedaço de terra na capital de nosso estado. Mas ele estaria deitado sobre a grama úmida, que roçaria com as mãos e faria com que agradeceria em silêncio pela possibilidade de render-se ao próprio destino.

Por outro lado, imagino-o também revivendo avidamente paisagens de décadas já há muito passadas nos momentos menos afortunados. Seu coração reviveria a ânsia de conviver com paixões impetuosas, e moças de sotaque ilhéu voltariam como fantasmas, que param ao lado de sua cama à noite e o fitam, indiferenetes às suas reações. Algumas o marcaram tal qual uma brasa ardente em sua pele; paralelamente, há aquela que o marcou no fundo de suas memórias, como se o tivesse queimado no âmago da alma. 

Voltando-se à essa antagionista, meu personagem normalmente acabaria remoendo a ideia de rever o nariz, sorriso e risada de sua inevitável memória. Essa personagem intensamente feminina o hipnotizaria ainda que distante por milhares de quilômetros, e o deixaria inevitavelmente convivendo com uma incansável marca no fundo de sua inteira existência. Cada cutucão na lembrança dessa embriagante moça, que reinventou suas ideias de paixão e propósito, voltaria como uma alfinetada no coração. Suas feridas, visivelmente cicatrizadas, destilariam de qualquer forma gotas volumosas de sangue e manchariam as toalhas de sua casa. As manchas ficariam como marcas, que só sairão com a condição de deixar um contorno inegável no fundo de sua retina.

Sentado em um banco à Beira-Mar, ele deixa o vento do mar confortar esses pensamentos. Deixar os receios roerem pensamentos como ratos são sintomas de uma mente doente. Ele olha para o luar e as estrelas (algumas estão ocultadas por nuvens de chuva, já que é verão), e se pergunta se não poderá eventualmente atingir a cartarse. Pois, se o heroi da história encontra a estabilidade, então o abismo profundo de dores indiscritíveis é temporário, já que ele então ressurgirá sobre platôs infindáveis. Meu personagem pergunta-se ansioso onde estará sua resposta.

"Por onde vaga o elo que ligará a minha corrente de até então com a solução definitiva que me redimirá?", diria. Ele joga preces ao vento, porque tem medo de que seja visitado por homens sérios vestindo capuzes, que cobrarão os motivos de suas sombras internas, mesmo sem dizer nada. A ideia de ter que olhar para esses vultos assustadores — um deles apareceu em certa ocasião acompanhado de uma terceira companhia, de feições assustadoramente similares às suas, mas calvo e com olheiras profundas — incomodava-o produndamente. O cheiro artificial do vulto de capuz branco lhe dá automaticamente um arrepio na coluna.

E ele segue olhando a linha do horizonte, mas a catarse pode não vir.


As histórias, como bem disse um famoso roteirista, devem ter um começo, um meio e um fim — mas não necessariamente nessa ordem. As catarses calculadas pelos autores, assim como a jornada do heroi (que pressupõe passos definidos para cada personagem principal), pode não ser inteira. A fração de um infindável conflito pessoal, afogando nosso protagonista como um pântano que o engole a cada braçada, pode resumir-se a uma história que se conclui no momento em que as bolhas de ar saem de sua boca pela última vez. A história talvez entreveja um resgate, mas nunca saberemos. 

Se os personanges têm espinhas, por exemplo — que os arrastarão impiedosamente em busca de seu chamado interno, vestindo-os inteiramente com propósito —, talvez estejam lá porque não as tenhamos fora da ficção. Indispomos de verdade inerente, que só se apresenta sazonal e efêmera. É como se, em função desse verve constante, conseguíssemos sentir desprendendo da ponta da caneta (e do teclado) faíscas de sentido, graça e claridade. Por isso eventualmente acabamos escrevendo sobre pessoas que não existem.

Talvez, veja bem, se conseguir elaborar uma narrativa (ainda rascunhada, mas não importa) de alguém dito herói, que enfrenta a catarse com pulsos firmes e olhares que não hestiam, não seja necessário que eu me clausure na busca de alguma solução confortante. Se meu personagem transparecer tranquilidade em ver suas paisagens favoritas aterradas, talvez se preocupe menos em deixar sua ideia de essência ser soterrada nos escombros de uma triste despedida.

Lembro-me do dia em que o conheci e já o esqueci: fiquei maravilhado com a forma que estava bem-humorado e disposto a descrever a previsão do tempo, elogiando tão contentemente Santa Catarina e sua diversidade natural. Talvez ele me servisse de inspiração, com tal desprendimento pelos encapuzados que já o atormentaram. 

Enfim, como pessoa real, era descomplicado ilhéu. Como personagem, tornou-se depósito de meus receios sobre minhas próprias catarses. Afinal, nosssos destinos equiparam-se ao desenvolvimento de histórias fictícias? Posso aceitar que cada dia meu transcorrerá em direção à resolução dessa iminente expurgação de infelizes pensamentos, ou estou diante de uma realidade infelizmente fria e pragmática? 

Se a catarse desse meu querido companheiro de viagem não for igualmente realista, terei que me conformar com soluções paliativas. Vou decorar "Para Viver um Grande Amor", de Vinicius de Moraes, e aí quem sabe saberei resolver essas aflições todas. Caso contrário, verei minha esperança desfalecer diante das dificuldades de manter viva os mesmos receios que o personagem tinha: sua antagonista, extraordinária e fascinante em seu apaixonante ar de triunfo, eternizar-se-á como busto idealizado nas memórias (protegidas por vitrais) em sua cabeça. 

Espero somente que a catarse seja tão real quanto nas histórias que ouso redigir, apesar de ser passional diletante. Que cada melancolia e abismo encontre em sua borda oposta um platô similar à Lagoa da Conceição, ornamentado pela água refletindo o céu e a areia das dunas, em seus infinitos grãos esquentados pelo sol.  Nunca mais precisarei encontrar o caixa do posto, a vender seus cigarros, e tampouco a bruma, a ilustrar claramente a melancolia e morte alheia.

Que sejamos aguardados por Esperanza Spalding e seu contrabaixo no outro lado dessa momentânea ausência, que nos fraquejará momentaneamente e desenhará mosaicos com todos os alfinetes espetados produndamente em nossos corações: francos, sinceros e flamejantes em suas paixões.

Caso contrário, que me levem embora os encapuzados temores de uma vida sem minha antagonista de perfume doce. 

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Não sei pensar nas coisas sem exagero.
http://mundoderascunhos.blogspot.com.br/2013/02/trechos-catarticos-parte-2-meu-coracao.html

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Maço ou carteira (2)


“Maço ou carteira?”, me pergunta o caixa do posto de gasolina.

Eu nunca sei a resposta dessa pergunta, ainda que fume ocasionalmente e compre sempre o mesmo cigarro. Peço o menor, mas ele responde confuso que os dois são iguais. A diferença é que um tem a caixinha diferente do outro.

“Maço ou carteira?”, ele pergunta novamente sorrindo.

Não sei bem o que responder. Tanto faz? Pode ser o de cinco reais, então. Ele ri, e me entrega os cigarros com um isqueiro pequeno. Não sei bem de onde veio essa vontade que tenho de vez em quando, mas volta e meia ela aparece, bastante pontualmente. Pego o troco e saio andando. Sempre achei que o maço fosse menor que a carteira ou sei lá. Não memorizei a diferença entre as duas coisas; provavelmente voltarei em algumas semanas (ou meses, quem sabe) e darei acidentalmente a entender de novo que estou os comprando pela primeira vez.

O dia está chuvoso em Florianópolis e uma bruma cobre toda a extensão do horizonte que consigo ver. Decido acender um dos cigarros e me misturar ao clima, envolvendo-me rapidamente em uma calmante nuvem de tabaco queimado. O gosto da fumaça me faz salivar, e logo sinto um rápido reflexo e um arrepio sobe minha coluna. Meu corpo agradece, apesar de saber aonde isso o leva.

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Minutos antes, no caminho até a pracinha onde estou sentado, fui acompanhado no ônibus por um ilhéu grisalho e grande, que me perguntou se estava cheio o centro de compras de onde saí. No meio da tarde de um dia qualquer na última semana de 2012, estava. Ele filosofa: nos dias sem sol, há uma tendência de que se encham esses lugares.

“E aqui em Floripa, quando bate esse vento, dá dois ou três dias de chuva, não tem?” — me diz por dizer.
Tem, eu suponho. O vento vem do mar, ele me explica, e traz todas as nuvens carregadas de lá. Se tivermos sorte, bate um vento do nordeste e esquenta, ou bate um vento sul e limpa tudo, mas esfria. A conversa se prolonga: a previsão do tempo nunca consegue acertar os ventos, embora eles consigam com algum sucesso entender a posição das nuvens. A temperatura também costuma estar mais ou menos correta. O vento, não.
“Nos dias que venta bastante”, ele aponta para a direita, “dá pra ver aqueles ciclonezinhos que aparece quando tem ar quente e frio, sabes? Tem que ficar olhando pro mar. Eu já vi alguns, não tem?”.

 Deve ser uma vista e tanto.

“Aqui vem de tudo”, ele continua. “Tudo — tudo o que quiseres de clima, tu achas”.

“Menos neve”, respondo.

“Acha sim, lá em São Joaquim”, ele diz sem pensar. “Nosso estado, Santa Catarina, é muito rico em belezas naturais. Cânions, cachoeiras, montanha, mar — tudo o que dá pra imaginar”.

Acho que ele supôs que eu fosse de algum outro estado.  Quiçá gaúcho, como perguntou um lojista no dia anterior, por alguma razão que ainda não sei bem. Olho para a água, agora que nos aproximamos da beira-mar, e volto-me para ele. Conversar sobre o tempo é não ter sobre conversar, como bem diz um amigo meu, mas essa é só uma introdução. Ele indica com o dedo toda uma área à esquerda do ônibus, e explica que tudo aquilo era mar quando ele era criança. “Foi aterrado, não sabias?”, e não saberia mesmo, não fosse por alguém já ter me contado tudo isso logo no primeiro dia que chegamos. Estou entretido.

“Minha casa era ali, ó”, me conta apontando para os prédios na avenida. “Eu conheci Floripa quando tinha três ou quatro prédios e mais um monte de casarão. Essa casinha amarela, por exemplo, não era da ‘associação dos amigos da praça’ (ou qualquer coisa que dissesse a pequena construção amarela de várias décadas atrás); era a casinha do esgoto. Saía tudo dali e canalizava pro mar, que era bem na frente quando não tinha o aterro”.

Meu guia acidental é uma grande companhia com seu excelente sotaque, mas vejo o meu ponto de referênciana Beira-Mar e lembro que tenho que descer. Faço menção de sair e ele se despede:

“Olha, feliz ano novo pra ti. Que venha o sol pra vocês aí!”, diz entusiasmado. Respondo à altura e desço.

Jogar conversa fora é sempre um grande prazer, visto o quão rapidamente vão embora nessas situações minhas preocupações insensatas. Catarse — "se é que há uma", chego a pensar — torna-se prodigiosamente um problema muito diluído na vida alheia.

Saio do ônibus e me encontro sozinho. Na falta de companhia, estou terrivelmente entediado. A visão de mais um shopping center por perto é extremamente aborrecida, mas vejo poucas opções além do hotel. Hora de comprar Zigaretten. Diante da mudança de calendário, sinto os efeitos de rememorar e mastigar 2012, mas sento-me para lamentar a perda de antiga professora que não resistiu a um câncer fatal.

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Mais catarses, poesia e madrugada:
http://mundoderascunhos.blogspot.com.br/2013/02/trechos-catarticos-parte-1.html

Maço ou carteira (1)


“Catarse”, digo em voz alta, tamborilando os dedos na mesa.

O jeito que essa palavra veio a mim foi como uma promessa bem contada, pedindo que eu me sentasse ao seu lado esperando que me jogasse um punhado de referências intensas o suficiente para que eu lacrimejasse. Parece-me que ela resume bem o que se passa em minha mente, como quando estamos tomando café e minha cabeça pende para a esquerda, jogando meu olhar a assuntos muito distantes da colherzinha de açúcar que há em minha bandeja vermelha.

Por exemplo: se fevereiro durasse para sempre, talvez eu pudesse flutuar constantemente em uma existência oportunamente confortável. Sairíamos para tomar saquê todas as noites, anotando pequenos prazeres da vida e rindo das crianças gordinhas que correm ao nosso redor.

Agora, no entanto, conto os dias do calendário esperando viver como berlinense temporário. Na expectativa da abstinência de mim mesmo, uma pequena catarse vai fazendo-se notar: sombras gigantescas cobrem os arredores das convicções acumuladas inocentemente até aqui. Minha respiração está abafada e meus pés, pesados como pedras. Sou demissionário da minha própria rotina. Meu peito abriga ofegante receio de que não consiga expurgar os medos da minha tola alma, tão nova a vagar à noite enquanto meu corpo dorme arrependido de deixar de lado pedaços do meu coração atrelados ao chão de Blumenau.

Se eu fosse um personagem, minha única direção na história seria ficar ao invés de partir. Tivesse eu nenhuma outra opção, insistiria em ficar como possível: ao invés de voltar, minhas cartas saudosas jamais cessariam de serem enviadas. Sempre teria como norte do meu mapa aquele dia em abril de 2012, em que chovia após uma tarde quente e ébria, na qual pude encontrar de súbito a única pessoa que me mostraria sem dificuldade a maior paixão que vou experimentar enquanto respirar.

Lembro-me de contar uma mentira para que Malu voltasse até o lugar onde estávamos, só para tê-la em minhas mãos mesmo que por um segundo — fosse esse o meu último segundo como aquele, ou o primeiro de incontáveis outros. Curiosamente, antes que me desse a chance de entender o que tinha feito, ela apenas olhou me bem no fundo dos meus olhos e pediu para eu ficar ao invés de logo ir embora. Exatamente como me foi pedido naquele dia em que eu estava ensopado de chuva, ficarei. Mas partirei, assim como imediatamente saí dali, cambaleando pra casa entre a culpa abismal e o estado de viva satisfação que é uma paixão pulsante recém-nascida.

Se eu fosse um personagem, meu único propósito na história seria reviver constantemente aquele dia em que selei uma promessa com um beijo. A catarse, para criar a tensão na história que a fará interessante de se ler, talvez seja partir ao invés de ficar. Não há boa história se não houver um personagem obcecado em satisfazer seu flamejante propósito interno, desde que possa contrastar a razão pela qual vive com um conflito aparentemente invencível.

Enfim ficarei, sem dúvida. Mas preciso primeiro ir embora, como se nunca mais fosse voltar. Catarse: encarnarei um personagem, e correrei exatamente na direção oposta do que acho que meu roteiro diz.

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(Faça-me importar, João. Dê-me um bom motivo para te ouvir.)

“Catarse”, digo novamente em voz alta, tamborilando os dedos na mesa.

Tudo isso começou em janeiro de 2012, semanas antes daquele dia em que choveu muito em abril. Até então não era hábito meu colher palavras aleatórias, mas lembro-me de conhecer Malu e logo propô-la que escrevêssemos textos livres com base em um tema novo — uma palavra diferente — por semana. Já tínhamos o hábito, e algo também me dizia que não me arrependeria de incitar e compilar suas narrativas em versos ou em prosa curta.

Naquela ocasião, estávamos entre meus amigos e ela não conhecia praticamente ninguém. Diverti-me vendo seu sorriso ameno e seus olhos inquietos buscando alguma fisgada de assunto ou deixa oportuna de se entrosar. Fui até ela na varanda, onde soprava uma brisa morna: queria fazer parte da sua vida, e sentia-me principalmente tentado a fazer dela meu personagem.

De acordo com minha sugestão, começaríamos por ‘madrugada’. Contar histórias é a forma mais simples e direta de expressão que conheço, então qualquer mínimo de itens aleatórios do nosso vocabulário era suficiente para inspirar nossa cabeças férteis. Prendíamo-nos em um emaranhado de referências particulares e linhas de raciocínio amargas para outros leitores.

O primeiro tema rendeu versos contemplativos. Minha mente deu casa a corvos, fantasmas suicidas, temas espinhosos e métrica poética. Casei as horas que passam depois da meia-noite com saudades infinitas em um poema maluco e substancial. Depois de relê-lo um tanto de vezes, dei-lhe o direito de ficar escrito a caneta em minha porta branca, ao lado de um trecho de “On the Road”. Agora tinha um constante motivo para sentar-se no chão diante da porta e reler o poeminha, inspirando o ar ao meu redor na esperança de achar o perfume de Malu no ar, junto com a voz doce e as passadas felizes.

Até hoje o perfume não surgiu do nada no ar, evidentemente. Mas cada vez que li o poema imergi em minha memória, voltando-me ao dia das rimas da madrugada e da homenagem velada à vontade de ver Malu ao fim de uma noite, no limiar da alvorada. Essa alternância entre sua ausência e o deleite de reviver dias de chuva — ou de sol na praia, vento no terraço, noites de Nat King Cole e luas cheias à piscina — é meu exercício mental. Tenho, afinal, que acostumar-me com a ideia de partir, contrastando uma paixão a centímetros de distância e a sua ausência a milhares de quilômetros.

Fases de transição ou mudança são feitas de corações rompidos e reencontros que nos redimirão. Catarse: eis o tema que me traz para este momento. Os ponteiros do relógio suíço de pulso esquecido por ela sobre a minha mesa de escrever correm sem tropeços, em um fluido movimento circular dos segundos que passam indiferentes ao meu apego pelo presente. Como uma sombra escondida por trás de cortinas claras, estou à espreita de assustadoras mudanças. O fim de um mundo que não acabou em 2012 é perfeita metáfora: cada dia encerra-se com clara fobia de que as horas sejam confundidas com frivolidades.

Ilustre-se o tema: voltemos ao fim de 2012.

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Mais poesia e madrugada:
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domingo, 25 de novembro de 2012

Esquecer-se: terríveis vultos (pt. 1)


Embora me considere um cara bastante introspectivo e entusiasta de uma boa dose de contemplação das paredes, uma das minhas maiores fontes de entretenimento certamente é encontrar pessoas com uma boa história. Tenho dois colegas bastante próximos que têm sido fontes constantes desse tipo de momento, e frequentemente me vejo diante de compilações verdadeiramente inusitadas de largas e detalhadas descrições de relevantes perspectivas no interior do Rio Grande do Sul e no litoral catarinense.

Por exemplo: um deles passou a ser recentemente o cara que já esteve em um cargo de gerência de uma sucursal na Índia aos 19 anos, comandando, entre outros, um sujeito que achava ideal manter o crachá de identificação pendurada no cinto, bem entre as duas pernas. Outra história memorável, pela qual me deixo convencer sempre, é aquela sobre como quase foi futebolista semiprofissional em alguma cidadezinha australiana. As pessoas são realmente surpreendentes de vez em quando.

O outro passou muito perto de padecer de febre em distantes aeroportos, chegando próximo de desfalecer em uma coleção de cidades e hostels mediterrâneos. Por sinal, parece-me que encontrou amor de verdade — ou assim gosto de entender o que me conta — e agora vive de felizes esperanças e eventuais tristes constatações. Nunca deixa de ser uma excelente conversa, precisamente por isso.

Aliás, no ensejo de alguma dessas narrativas, deixei-me levar por devaneios em uma boa meia hora de expediente outro dia, quando me foi explicado longamente como eram os detalhes nas paredes de mármore do Taj-Mahal. “É o tipo de coisa que não dá pra entender até que estejas lá”, diz ele. “Fiquei de cara. Mesmo.” As gravuras da fachada e a estrutura da construção – naquilo que a internet chama de uma das obras primas do estilo arquitetônico correspondente, como fui ler depois – são praticamente incontáveis, e todo o conjunto desenha a epítome da metáfora à qual voltamos sempre: viajar é partir para surpreender-se. Todas as culturas em algum momento  estarão à espera com algum memorial monumental, atentas ao seu queixo caído.

Nisso ele continuou: há certas rodovias e estradas indianas à beira das quais crianças cadavericamente subnutridas deitam no meio-fio, entre lixo e sujeira. Nada particularmente idiossincrático, mas foi o suficiente para causar uma impressão e tanto em mim. E um pouco longe disso — mas em uma realidade não tão distante — os seus colegas de trabalho indianos gostavam de comer uma refeição apimentada só com a mão direita. Suas vidas são temperadas como suas refeições, e um ocidental desavisado não percebe isso até que queima a língua com o molho ardido. Enfim, suponho que não seja possível de manter uma convicção de pé quando alguém te olhar rindo e pronunciar com sotaque exótico que, veja só, o importante talvez não seja nada disso que você está querendo. Ele não precisa saber onde fica Santa Catarina, mas o indiano preza em sua casta uma realidade paralela a nossa — e é feliz à beça.

“Como assim? É um lance tipo o karma?”, pergunto, já conhecendo em parte o assunto, mas indagando do mesmo jeito. “É, por aí”, diz ele. “Castas e tal.” Ninguém lá é exatamente um poço de conformismo, mas não é difícil de imaginar que as pessoas tenham um espectro de perspectiva completamente diferente: quem morre sabendo que vai ter uma bela pós-vida, morre feliz. “E aí não faz mal que o cara morra na merda”, concluiu ele, pensativo.

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Esses meus dois colegas viajam logo, e amanhã não estarei aí. Despedi-me deles tão logo terminaram as narrativas sobre países longínquos e fusos horários opostos. A um deles, como de praxe, pedi um cartão-postal; ao outro, não disse nada, mas não foi necessário. “Não curto muito escrever”, ele acrescentou espontaneamente e riu.

Ah, é realmente uma pena: no meu pretenso costume de escrever vez ou outra as abstrações sem sentido, referências pouco claras, amores e desamores que acontecem por aqui, imagino que, se meu colega nunca parar para registrar, um dia as suas histórias serão esquecidas sem dó. Bom, por certo ele também não estava sentindo muita piedade das histórias. Até o questionei se não lamentava ter deixado de lado a oportunidade de ser o brasileiro futebolista ganhando uma grana na Austrália ou de viver um sonho bollywoodiano, mas não. “Foi uma fase, e daqui a pouco vou estar em Hamburgo trabalhando num emprego ‘da hora’, vais ver só”.

Minha fobia do esquecimento me engasgou.

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O turbilhão de memórias continua, mas a história passa a ser minha — estive em um casamento há pouco tempo. Melhor dizendo, o casamento do meu irmão, e um dos dias mais felizes que já pude viver. Havia no ar um clima bastante incrível de êxtase e genuína felicidade, impressionantemente não limitado ao casal. Talvez o padre tenha acertado ao dizer que estávamos celebrando o amor.

O lugar era bastante bonito, é importante não esquecer. A igreja de Gaspar é grande, alta, com pilastras majestosas, uma bela fachada, com cores vivas e gritantes, uma escadaria alta, e o altar simples, mas emocionante. Lá eu chorava, como bom padrinho. As pessoas iam entrando, e eu lá soluçando no altar que ocupava só como feliz testemunha. Limpo o suor da testa, ajeito a gravata prata e poderia continuar, mas em termos de esquecimento, há outro foco — lá pelas tantas, minha avó sobe ao altar.

Vamos lá: tenho uma avó que tem uma séria doença degenerativa no cérebro, e isso a faz esquecer-se de tudo e todos depois de certo tempo, permitindo-lhe uma cara amistosa, dócil, confusa e um constante ar de admiração. Estamos sempre a nos perguntar se ela realmente compreende o que se passa. Talvez finja entusiasmo para que paremos de dar atenção ao fato de que ela de fato não pode estar totalmente ciente daquilo que a cerca.

No conjunto da pessoa — com seu tailleur cor-de-rosa, cabelos crespos e simpáticos óculos redondos —, vi uma adorável mulher no limiar do esquecimento.  Alguém que assentia alegre e cordata a cada afirmação entusiasmada do padre eloquente, mas que me dava ao mesmo tempo inexplicavelmente uma impressão triste. Eu provavelmente estava fortemente influenciado por saber qual é sua real condição médica, mas não pude conter um soluço menos contido quando a vi subindo os degraus que levavam até os noivos.

Por alguns segundos no altar, lugar e hora bastante improváveis para tal, vi-me diante de uma série de recordações de quando meus primos, meus irmãos e eu éramos criança e corríamos pelo quintal dela. Nesse tempo, ela costumava fazer pão de queijo para nós, cujo sabor e textura sempre permanecerão irreproduzíveis. Talvez já tivesse tido a sorte de provar algum pão de queijo com cheiro não muito diferente, mas o gosto nunca será tão bem misturado com a memória do cheiro dos limões e do galinheiro abandonado no quintal. Pensando bem, não sei se meu paladar saberia distingui-lo se o estivesse provando novamente.

O pão de queijo, é claro, é apenas um exemplo. Ninguém choraria porque sente tanta falta de uma ou outra iguaria específica. Mas lamentei que minha avó — e sua alma, arrisco-me a dizer  —  estavam apenas em parte presentes. O resto fora já outrora soprado pra longe.

Meu ponto: acho que imaginar uma vida inventada para ela não vai ser o suficiente depois que cair no infinito abismo do cérebro plenamente degenerado. Lamentarei infindavelmente, mas enquanto não houver alguém que se disponha a biografar a sua vida por completo e faça com que choremos de nostalgia (e não só saudade), vou viver atormentado por ter conhecido só uma lembrança viva e já borrada. Sua voz trêmula vai desaparecer, por nunca tê-la gravado, e seu quieto mundinho interno conhecerá a extinção, por não o ter transcrito. Conheço-a, pelo jeito, muito menos que deveria, mas agora teremos cada vez menos de si para contar ao mundo.

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Viver, arrisco dizer, é estar imerso em um fluxo de memórias, servindo a nossas vidas como narrativas paralelas. Aqui, onde somente a introversão vê prazer, os fantasmas surgidos do assombro da transitoriedade são terríveis e assustadores vultos. As narrativas paralelas de outrora são lembretes sérios e impassíveis de que possivelmente as partidas futuras serão a tônica constante de tudo o mais que sobrevier. Se o desapego, como os vultos espreitando nos cantos no aguardo de um passo desatento, ousar estar certo, dar-me-ei por vencido pelas futuras tentativas de fincar raízes nas pretensas veredas oferecidas pela minha fácil e vã vida. A leveza com que o tempo passa é, como bem dito entre Joinville e Blumenau, tanto nossa tragédia quanto nossa esperança. 

nunca me esqueço:
http://mundoderascunhos.blogspot.com.br/2012/10/retoricas-sobre-esquecimentos.html

Esquecer-se: felizes vultos (pt. 2)


Em uma perspectiva mais deslumbrada, por outro lado, há o puro bliss extasiante de acordar com a cama tomada pelo súbito ar perfumado, pelo corpo quente e o único sorriso que eu consigo aceitar como belo e único. Sobre as longas mechas castanhas que adornam tanto minha incrédula realidade, paira o inconfundível motivo para abandonar qualquer pensamento que faça qualquer referência de longe à pedra de Sísifo. É visível como a assustadora perspectiva de assistir desmoronar o produto de semanas, meses e até anos de trabalho pode parecer apenas distração nesse tipo de momento. 

O karma indiano, as histórias infindáveis que serão sequer incluídas nos anais de qualquer registro, os tristes parentes e fantasmas que levarão consigo as biografias impublicadas, o gosto de pães de queijo inauditos: todos os itens dessa lista efêmera e volátil são os fractais infinitos de explicações incompreensíveis (cujos desdobramentos jamais cessam), resultando em uma única conclusão, demonstrável somente pelo afã do momento descrito agora: quando a luz batia pela janela em uma pequena fresta, na perfeita temperatura de novembro às 10h30, e a expiração brusca e barulhenta do labrador no andar de baixo são o único (e praticamente imperceptível) ruído, abri os olhos e fui recebido com o ‘bom dia’ mais doce que já pude ouvir. Meu corpo por completo ainda estava sedado pelo sono confortável do colchão de casal macio e pelo ar gelado do quarto. Despertei aos poucos, perguntando-me se podia aceitar aquilo sem remorso de todas as conversas tidas durante os dias úteis, nos bares, nos bancos da faculdade, e oferecidas por todas as inadiáveis e terríveis dificuldades alheias.

Ainda assim, confortei-me em meu mais sincero sorriso, e de olhos fechados, com todas as perspectivas de tempo convenientemente afastadas, citando um grande amigo, percebi: tem gente que vive uma vida inteira e não sente isso que a gente está sentindo. 

Não há medo do futuro que consiga persistir incólume. 

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nunca me esqueço: 
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quarta-feira, 28 de março de 2012

‘Ficar sem palavras’ em três tempos (pt. 1)

O., nascido em terras tupiniquins (mas português por excelência), de uns vinte e poucos anos, visitou-nos outro dia durante o expediente. Alto, moreno, de cabelos crespos, camisa listrada e sapatos muito rasgados, era um sujeito peculiar o suficiente para que eu achasse difícil de dizer o que me chamava mais a atenção. Claramente me soava estranho o sotaque, e também achei interessante a sua dificuldade em conter os gestos, porque ele expressava-se de forma que sempre sabíamos logo de cara o que lhe interessava e o que lhe era indiferente. Mas era principalmente peculiar como ele se perdia nas palavras.

Antes, um pouco mais de contexto: O. é antropólogo formado na França, e apareceu ali no meu “nine to five” diário com o pretexto de entrevistar o teuto-brasileiro mais importante daquelas bandas. Depois de um par de ligações, apareceu ofegante, simpático e atrasado, aceitou o copo de água antes de começar, e aí então sacou o gravador com o bloco de notas.

Depois de devidamente apresentados um ao outro, sentaram-se tête-à-tête à mesa diante de mim. O. nos olhou um pouco afoito e disse: “Bom, obrigado por me receber, peço desculpas pelo atraso. Acho que podemos começar, não?”

Ok, vá em frente, gajo. Estamos todos curiosos para ver o que tens aí.

O. notou nosso assentimento e buscou no ar o que deveria dizer. Seu entrevistado me olhou um pouco, e de repente veio a primeira pergunta: “o que significa, afinal, ser um imigrante alemão em Santa Catarina?” Recebo um olhar meio decepcionado do outro lado da mesa. Não era uma pergunta nova para o saxão, que revistou memórias e pôs-se a elaborar um pouco desconcertado vagas elucubrações acerca da sua vida recente por aqui.

Nosso visitante ouviu desatento, e folheava enquanto isso seu caderninho. Olhou o gravador e tornou a fitar-nos. Hesitante, persistiu no silêncio por alguns momentos, mas então subitamente pensou em alguma coisa e perguntou: “Mas... como você veio parar aqui?”

Novamente noto que não era o tipo de pergunta esperada. Nós estávamos acostumados com pessoas que não têm tempo a perder, como os bons e velhos engravatados munidos de jargão, briefings, estratégias e segundas intenções. Ficamos atordoados de ver alguém naquela salinha que precisava elaborar com calma cada frase. E, veja só, as próximas perguntas não foram diferentes: algo genérico, algo de senso-comum, algo aparentemente pouco produtivo. Não suficiente, O. sempre reagia lacônico às respostas, cheio de monossílabas, e às vezes também fazia anotações. Digamos, vi-o escrever um par de frases e palavras soltas. E isso foi tudo.

Depois de meia-hora, O. resolveu que já era o bastante. Levantou-se, agradeceu, cumprimentou-nos novamente e saiu. Fui levá-lo até a porta, e no caminho questionei-o rapidamente sobre o tema da pesquisa, o porquê de ter aparecido por lá e tal.

O. virou-se para mim. Vi que ele tentou simplificar as ideias antes de começar a falar. Enquanto ia saindo pela porta da frente, explicou-me como pôde alguma coisa sobre o vínculo emocional com o idioma, o nacionalismo alemão e as implicações morais e comportamentais disso... bom, sei lá. Não saberia transcrever o que ele me disse, mas foi o momento de ver como esse cara de sapatos muito rasgados sabia exatamente do que estava falando. Não importava sua falta de articulação de minutos antes. Vi passando por seus olhos — que corriam de um lado para o outro enquanto ia descrevendo os propósitos da tese, isso, isto e mais aquilo — memórias sobre a enorme pilha de livros que o já devorara, as muitas aulas, discussões, e incontáveis horas gastas em alguma biblioteca de Paris dedicando pensamento ao porquê dos alemães que emigravam e amavam seu indelével Deutsch.

Enfim, depois acabei entendendo uma daquelas frases de livrinho de citação: as pessoas que mais têm o que dizer às vezes realmente são aquelas que mais tropeçam nas próprias palavras. Ou: não ter palavras nem sempre significa não ter o que dizer.

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Palavras que têm alma: