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domingo, 13 de maio de 2012

Like freckles in your arms


(É tempo de escrever coisas que provavelmente ninguém mais vai entender ou mesmo ler.)

Há alguns dias, não muito tempo depois de contestar diariamente um arrependimento que me adoecia as ideias, tive a oportunidade de dar algumas voltas de carro, na busca de qualquer lugar afastado de onde fosse possível ver o céu. Era a ocasião de aparecer a maior lua do ano, a "supermoon", que veio não muito maior que a lua normal. As estrelas não contiveram o brilho também intenso, e acabamos por ver um céu bastante inspirado.

Estrelas multiplicam-se no escuro. Diz-se que, em sua maior visibilidade e clareza, são um grande guia de localização, porque sua disposição (ainda que em constante movimento) está lá como complicadas indicações de direção, e suspeito que se formos longe o suficiente das luzes da cidade, podemos ver até a via láctea (“...deve ser uma visão e tanto”). É quase como no livro de rabiscos de um maníaco, cheio de itens coloridos que não têm nenhuma relação aparente entre si, nenhum esquema claramente distinguível. De qualquer forma, por mais bonito que fosse, não soube dizer, no entanto, qual era o propósito de imaginar e dar nomes a conjuntos de estrelas. Fui então ver um livro ou outro (“A Walk Through the Southern Sky” foi um princípio bastante elucidativo), e dizia lá que constelações são mapas disfarçados de desenhos e poesia grega antiga, com odes a ninfas e caçadores correndo atrás de Afrodite*. Em outras palavras, três pontos brilhantes em linha reta, outros quatro pontos arqueados, mais um punhado espalhado, e pronto: lá está a constelação de Sagitário, nascendo ao leste, enquanto Órion se põe ao oeste, fugindo do centauro que protege Hércules. O cruzeiro do sul debaixo do Centauro, por outro lado, não tem nenhuma lenda a justificá-lo.

O mais fascinante disso é que nenhuma das constelações é óbvia. Até o cruzeiro do sul é uma cruz bastante questionável, mesmo porque poderia ser qualquer outra coisa pelo padrão dos outros desenhos. Claro, a ideia de imaginar desenhos ao redor das estrelas foi só um método muito inteligente para identificar padrões em pontos bastante esparsos aleatoriamente, então tudo isso é uma questão mais secundária. Ainda assim, é bem aí nesse ponto secundário — porque às vezes o secundário é mais divertido que todo o resto — onde começa esse divertido exercício de associar qualquer nova ideia às estrelas, e permitimo-nos a abandonar os mapas astronômicos que já estão aí a tanto tempo. Imaginemos livremente o que terá o céu a nos dizer nessa ou naquela noite, e as metáforas serão em mais número que as próprias estrelas. Veja, gosto de pensar, para começar, que essa coisa transitória e fugidia do lento movimento das estrelhas ao longo dos meses é uma metade de nossas vidas, sendo a outra o eterno e o imútavel, posto que as estrelas sempre voltam aonde já estiveram. Capisci?

Ou: podemos inventar sozinhos um mapa de estrelas, a título de nos orientar com sinais não visiveis a olho nu, e teríamos, então, nossa própria coleção de constelações como memorabilia. Cada mês, uma recordação: Abril, Eros e Dionísio; Maio, Thanatos e Psiquê. Ou quem sabe até algo menos pretensioso, e daríamos a cada trio de estrela uma música do Beirut, ou uma canção em inglês para cada plêiade, e as maiores teriam nomes em alemão: “Sehnsucht”, “Abwesenheit”, “Schweigsamkeit”, “Die Nacht”, "Herbstabend", ou sei lá mais o quê. A única exceção seriam aquelas que estiverem dispostas no céu como as pintas de nossos braços, que terão nossos nomes de verdade.

De qualquer forma, há de ser algo bastante interessante: nossa orientação por um tracejado de linhas imaginárias, livros de poesia, e promessas — cumpridas ou não. Suerte!
  
---
*Um dos muitos sonetos de Camões, achado ao acaso:

Deixa, Apolo, o correr tão apressado,
Não sigas essa Ninfa tão ufano,
Não te leva o Amor, leva-te o engano
Com sombras de algum bem a mal dobrado.

E quando seja Amor será forçado,
E se forçado for, será teu dano:
Um parecer não queiras mais que humano,
Em um Silvestre adorno ver tornado.

Não percas por um vão contentamento
A vista que te faz viver contente:
Modera em teu favor o pensamento.

Porque menos mal é tendo-a presente,
Sofrer sua crueza, e teu tormento,
Que sentir sua ausência eternamente.

“Up a tree in the park at night with a Hedgehog”, últimas linhas:

"Oh, look at that.
Stars.
I didn't notice them before.
It's funny how people always strive for the most hyperbolic, poetical and grandiose terms when trying to describe stars and how far away they are. It's all vast empty reaches of space and aeons of light-years when all anyone really needs to say is they're a long way away.
A long way away is a long way.
But they're not really a long way away either.
They're a long time ago. They don't exist any more. Some of them went boom before Adam was a boy. What we're looking at are the memories of stars.
 But they're beautiful just the same."


--

* Are there patterns in our skies, are patters only in our eyes?

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Ah, vida.

"Herbsttag", de Ranier Maria Rilke*

Senhor: agora é tempo. O verão passou lento;
repousa tuas sombras sobre as horas de sol
e pelos corredores deixa soprar livre o vento.

Ordene que estejam cheias as últimas frutas
dê a elas mais dois dias sulistas
com afinco pressione-as
e cace a doçura restante do mais pesado vinho.

Quem agora não tiver uma casa, não mais a construirá;
Quem agora estiver sozinho, assim enfim permanecerá,
crescerá, há de ler, e longas cartas escrever
e vagará por avenidas aqui e lá
afoito, quando as folhas impelirem-se.

--

Diz-se que te fazer pequeno de nada serve ao mundo
Mas teu tamanho é descontado de cada desacerto.
És pequena jóia sem valor, quebrado e sem conserto
errado, inexato, contestável, parvo, imundo.

Talvez (na falta de comparação melhor)
é como os cartões postais nunca enviados
que tornaram-se contrariados
marca-páginas.

Ai, vida. E agora,
o que Drummond faria?

--

"Wer spricht von Siegen? Übersteh'n ist alles!"
http://mundoderascunhos.blogspot.com.br/2012/04/um-medo-peremptorio-do-ego.html

*
Original encontrado aqui: http://www.gutenberg.org/dirs/3/4/5/2/34521/34521-h/34521-h.htm
Tradução minha e do de.thefreedictionary.com

quarta-feira, 28 de março de 2012

‘Ficar sem palavras’ em três tempos (pt. 1)

O., nascido em terras tupiniquins (mas português por excelência), de uns vinte e poucos anos, visitou-nos outro dia durante o expediente. Alto, moreno, de cabelos crespos, camisa listrada e sapatos muito rasgados, era um sujeito peculiar o suficiente para que eu achasse difícil de dizer o que me chamava mais a atenção. Claramente me soava estranho o sotaque, e também achei interessante a sua dificuldade em conter os gestos, porque ele expressava-se de forma que sempre sabíamos logo de cara o que lhe interessava e o que lhe era indiferente. Mas era principalmente peculiar como ele se perdia nas palavras.

Antes, um pouco mais de contexto: O. é antropólogo formado na França, e apareceu ali no meu “nine to five” diário com o pretexto de entrevistar o teuto-brasileiro mais importante daquelas bandas. Depois de um par de ligações, apareceu ofegante, simpático e atrasado, aceitou o copo de água antes de começar, e aí então sacou o gravador com o bloco de notas.

Depois de devidamente apresentados um ao outro, sentaram-se tête-à-tête à mesa diante de mim. O. nos olhou um pouco afoito e disse: “Bom, obrigado por me receber, peço desculpas pelo atraso. Acho que podemos começar, não?”

Ok, vá em frente, gajo. Estamos todos curiosos para ver o que tens aí.

O. notou nosso assentimento e buscou no ar o que deveria dizer. Seu entrevistado me olhou um pouco, e de repente veio a primeira pergunta: “o que significa, afinal, ser um imigrante alemão em Santa Catarina?” Recebo um olhar meio decepcionado do outro lado da mesa. Não era uma pergunta nova para o saxão, que revistou memórias e pôs-se a elaborar um pouco desconcertado vagas elucubrações acerca da sua vida recente por aqui.

Nosso visitante ouviu desatento, e folheava enquanto isso seu caderninho. Olhou o gravador e tornou a fitar-nos. Hesitante, persistiu no silêncio por alguns momentos, mas então subitamente pensou em alguma coisa e perguntou: “Mas... como você veio parar aqui?”

Novamente noto que não era o tipo de pergunta esperada. Nós estávamos acostumados com pessoas que não têm tempo a perder, como os bons e velhos engravatados munidos de jargão, briefings, estratégias e segundas intenções. Ficamos atordoados de ver alguém naquela salinha que precisava elaborar com calma cada frase. E, veja só, as próximas perguntas não foram diferentes: algo genérico, algo de senso-comum, algo aparentemente pouco produtivo. Não suficiente, O. sempre reagia lacônico às respostas, cheio de monossílabas, e às vezes também fazia anotações. Digamos, vi-o escrever um par de frases e palavras soltas. E isso foi tudo.

Depois de meia-hora, O. resolveu que já era o bastante. Levantou-se, agradeceu, cumprimentou-nos novamente e saiu. Fui levá-lo até a porta, e no caminho questionei-o rapidamente sobre o tema da pesquisa, o porquê de ter aparecido por lá e tal.

O. virou-se para mim. Vi que ele tentou simplificar as ideias antes de começar a falar. Enquanto ia saindo pela porta da frente, explicou-me como pôde alguma coisa sobre o vínculo emocional com o idioma, o nacionalismo alemão e as implicações morais e comportamentais disso... bom, sei lá. Não saberia transcrever o que ele me disse, mas foi o momento de ver como esse cara de sapatos muito rasgados sabia exatamente do que estava falando. Não importava sua falta de articulação de minutos antes. Vi passando por seus olhos — que corriam de um lado para o outro enquanto ia descrevendo os propósitos da tese, isso, isto e mais aquilo — memórias sobre a enorme pilha de livros que o já devorara, as muitas aulas, discussões, e incontáveis horas gastas em alguma biblioteca de Paris dedicando pensamento ao porquê dos alemães que emigravam e amavam seu indelével Deutsch.

Enfim, depois acabei entendendo uma daquelas frases de livrinho de citação: as pessoas que mais têm o que dizer às vezes realmente são aquelas que mais tropeçam nas próprias palavras. Ou: não ter palavras nem sempre significa não ter o que dizer.

--

Palavras que têm alma:

segunda-feira, 19 de março de 2012

O salmo 23 no escuro

Texto inspirado vagamente
por uma conversa com M.R.
— e mais uma série de coisas.

Estou sentado diante de uma senhora, cujo rosto de poucas rugas, bastante idade e feições claramente europeias, denotará em alguns instantes doce seriedade e algo de fascinação. Ela aperta um terço em sua mão direita, e ajeita os óculos redondos, levemente tortos. A sala é escura, e na verdade tudo o que eu consigo notar realmente é a escuridão. As sombras em seu rosto revelam mais que as partes iluminadas. Também são quase pretos os tons pastéis de sua roupa simples e pudica.

Entre nós há uma mesa. Minha cadeira é apertada, então me ajeito impaciente. Ela posta a mão esquerda sobre a mesa, tamborilando os dedos. Inclinando a cabeça e sorrindo interessada, pergunta-me:

“Me diz, então: o que te fascina?”

Não é uma pergunta simples. A sala em que estamos também tem uma janela. Como é noite e o céu está nublado, há uma claridade bastante sutil entrando. Isso significa que não vejo nada lá fora além de um grande e infindável preto acima do horizonte, mas graças a isso me ocorre oportunamente uma resposta aceitável: digo-a que me fascinam as estrelas.

Sra. R. me olha cética, mas não perde a pose nem o sorriso. Põe sua mão no queixo e deixa subentendida a pergunta. “Bom, gosto da ideia de olhar para cima à noite e ver tantos retratos de não sei quantos anos atrás”, complemento. Ela abranda o sorriso.

“Você sabe, as estrelas estão longe o suficiente para que nós apenas consigamos vê-las milhões de anos depois que suas luzes tenham sido emitidas”, eu digo, sentindo-me como Marcelo Gleiser. Parece que estou no Discovery Channel, falando pela centésima vez sobre a velocidade da luz e os irmãos que envelhecem diferentemente porque um deles está em uma espaçonave rápida à beça.

“E por causa disso,” continuo enfático, “estamos olhando para a fotografia — não literalmente, é claro — daquilo que as estrelas costumavam ser. E isso me fascina. As estrelas nesse antigo manto de escuridão fazem um belo jogo de luzes com o que está aqui embaixo”.

“Não sei bem se jogo de luzes é o termo certo aqui. Mas entendo o que você está querendo dizer. Também acho bacana,” ela me diz. No entanto, muda de assunto, e aproveitando a deixa, Sra. R. começa a contar-me uma parábola. Nessa parábola, a luz (“quiçá uma dessas estrelas que você tanto gosta”, diz ela de passagem) chama um homem feito de sal para dentro do mar. O homem de sal vai andando para dentro da água, tentando alcançar essa luz que continua a chamá-lo, ainda que isso o dissolva aos poucos. O homem obviamente se desfaz inteiramente depois de algum tempo, e termina por integrar o mar, junto com a luz.

“E a luz, veja só que incrível, é Deus.” Seu sorriso manso não se desfaz. “Não é fascinante?”

Não entendo a parábola. Olho discretamente o relógio, mas ele está parado. Também não me lembro como fui parar ali e fico desconfortável novamente. Penso até por um instante que é muito estranho inclusive que estivéssemos em uma saleta tão escura. Mas a historinha força-me a voltar-lhe a atenção, e questiono-a sobre a moral por trás daquilo.

“Ora, não é claro?”
Não, não é tão claro. Faço a mesma cara que meu cachorro faz quando converso com ele.
“O homem de sal tornou-se um com Deus. E isso é todo o necessário.”
”Mas ele deixou de existir—“
“Por certo, mas não importa. Ele incorporou-se ao amor infinito. Ihm wird nichts mangeln.”

Entendo qual é o seu ponto, mas não tenho certeza do que ela está tentando me dizer. Ela já sabe que acredito em nada. Ou, como lhe dissera pouco antes, tenho muita fé na inexistência de qualquer coisa (além do fundo de nossas pálpebras) quando fechamos nossos olhos. Digo-a que não sei se me interessa ficar imerso na escuridão do fundo do oceano, por maior que seja o amor a me acompanhar.

“Parece-me que você não está imaginando isso corretamente. Suponhamos que você fosse o homem de sal. Quando você estivesse enfim dentro do mar, a escuridão seria eigentlich um clarão acolhedor. Digamos, um branco fosco.”

Lembro-me de quando assisti “Ensaio Sobre a Cegueira”. Esse branco que ela descreve me faz pensar em algum tipo de cegueira metafórica para aceitação, mais ou menos como na imagem que passa a adaptação em filme. Sei lá, provavelmente não era disso que Saramago estava falando. Ainda assim, qualquer que seja a metáfora, não é como se me fosse estranha a fé incondicional que Margarete (eis seu primeiro nome, lembro de repente) demonstra. Talvez eu quisesse a sentir também.

„Und ob ich schon wanderte im finstern Tal, fürchte kein Unglück—“, ela entoou, e prontamente complementei:
„Denn du bist bei mir.“

Suas feições estão denotam como ela está satisfeita. Conheço, afinal, o salmo 23. Deve estar pensando que está diante de um crente relutante, apesar das justificativas. Minhas frases seguintes giram em torno de certas influências culturais que eu teria recebido; digo-a que, apesar da aparente relutância, ter crescido em um ambiente favorável a esse quase-cristianismo faz com que qualquer ideia de um pastor conduzindo minha alma atormentada — apesar de ser classe média branquinha e não ter muito com o que me atormentar, como observaria um grande amigo meu — seja uma ideia bem reconfortante. Pendão da esperança mesmo é aquela cruz pequeninha que ela ainda segura na mão direita.

“Se é que há um vale das trevas, ou da escuridão, prefiro pensar que ainda estejamos nele. Quer dizer, a inconsistência é bastante assustadora, mas tenho certeza que há formas também interessantes de amor sem que nos dissolvamos no mar”, falo meio que por falar. Antes que ela reaja, mudo de assunto:

“Amor também é algo fascinante.” Ela exclama contente em concordância, mas permanece sem dizer nada, apenas ouvindo-me falar. “Aliás, fascinantes mesmo são as pessoas.”

Margarete contém sua reação e espera pelo resto, ao que continuo: “Fico sempre impressionado de imaginar que certos animais (porque somos animais, mesmo com o polegar opositor e o telencéfalo altamente desenvolvido) sabem contrair determinados músculos do rosto para (propositalmente) sorrir. Isso diz muito para os outros animais que também têm essa capacidade. Há uma série de coisas para se tirar daí, como ver a paixão com que se enxerga o sorriso alheio—”

Eu paro no meio da frase, hesitando ao escolher as próximas palavras, e ela se aproveita da minha pausa:
“Porque afinal o amor é um pouco disso, não é?”

Não sei bem. Se saímos de definições complicadas acerca da pós-existência e Deus (algo que normalmente rende uma conversa difícil e aborrecida), estávamos agora em terreno ainda mais pantanoso. Repasso na cabeça o punhado de concepções a respeito de amor enquanto ela elabora a próxima frase, e acabo por concluir que não é algo feito de sorrisos, ainda que sorrisos sejam deveras agradáveis. Amor, pensando bem, é uma palavra muito pesada. Sorrisos são leves demais para isso.

“Acho que amor,” — seu tom é didático — “acontece quando você percebe a perfeição daquela pessoa que é imperfeita.”

“É, acho que é isso mesmo”, respondo. Assisti certa vez a uma entrevista dada por Jacques Derrida, mais ou menos sobre a mesma coisa, mas me faltam palavras para elaborar alguma coisa concreta e continuar. Estamos agora sorrindo amigavelmente um para o outro, um pouco sem o que dizer, mas dois gatos começaram a brigar lá fora e tiraram nosso foco da conversa. Os miados são muito estridentes.

“Só é uma pena que isso normalmente não seja tão simples”, digo quando os gatos ficam de novo em silêncio, procurando terminar o assunto e quem sabe a conversa. “Quero dizer, uma das minhas palavras favoritas em alemão é Leidenschaft, que significa ‘paixão’ em português.” Ela acena com a cabeça, sempre com uma expressão passiva e agradável.

“E gosto muito dessa palavra pelo jeito em que a conceberam. Veja, nunca olhei “Schaft” no dicionário, mas suponho que esteja de alguma forma ligada a um conjunto de alguma coisa. Não é? Porque se “Nachbar” é vizinho e “Nachbarschaft” é vizinhança, então o “-schaft” deve implicar definitivamente no coletivo da primeira palavra”.

“E se ‘Leiden’ é sofrimento em português,” — eu continuo — “você suporia sem dificuldade que ‘Leidenschaft’ deve ser um monte de sofrimento ou qualquer coisa dessa natureza. Mas ‘Leidenschaft’ significa ‘paixão’, veja só. Não me parece uma concepção somente germânica a respeito do significado de paixão." Ela passou a piscar um pouco mais rápido, seguindo o raciocínio. Levanta uma sobrancelha, e então termino, gesticulando um pouco demais.

“A paixão, portanto, é um monte de sofrimento (independentemente do grau desse sofrimento); mas é paixão. Na escuridão está o sentimento mais incrível — e fascinante — de que dispomos.”

E a escuridão, que já era forte na saleta em que estávamos, acabou por tomar-me completamente. Não saberia dizer quanto tempo isso levou; talvez uma hora, talvez algumas semanas, talvez uma vida inteira. Só sei que, passado esse ínterim, as sombras enfim cobriram toda a extensão do rosto de Sra. R. e não vi mais nada.

Meu último pensamento ainda pairou sobre a conversa, talvez deixando bastante claro que o amor (ou a paixão, que não são a mesma coisa, mas são partes de um mesmo todo) são contradições bastante complexas. Leidenschaft é um perfeito exemplo disso.

Enfim quis dizer em alemão, mas só me veio em inglês:
we must reinvent love.

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Diferentes concepções de escuridão:
http://mundoderascunhos.blogspot.com.br/2012/03/quarter-to-three.html

*Sort of related: http://youtu.be/dj1BuNmhjAY

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

O americano finlandês de Berlin (pt. 1)

E então o Americano – lamentei muito não lembrar do nome dele depois – tirou um pincel atômico do bolso do casaco e pôs-se a escrever na mesinha quadrada que estava encostada na cadeira dele. Eu, com pouca vontade de dançar na sala ao lado, tinha me sentado um pouco antes em uma poltrona a sua esquerda; ele, entre todos dali que parei para olhar com calma, parecia ser o spaced out mais simpático.

Era julho de 2011 em Berlin e estávamos no Tacheles, um dos lugares mais improváveis para terminar a minha penúltima noite daquele mês na Alemenha. Mais precisamente, sentávamos em uma ante-sala (sozusagen) da pista onde alguém tocava dubstep, no último andar de um prédio no centro da cidade que já fora hospital, universidade e era então galeria de arte alternativa. A música fremia, e em um ritmo não tão rápido, era acompanhada em pulsos pela luz negra e os flashes. As paredes totalmente pichadas já não me distraiam tanto quanto aquilo que ia sendo escrito a um metro de distância de mim.

Ele então notou que eu observava, puxou um cigarro e me ofereceu um também - “cigarette?”. Aceitei, um pouco receoso, e começamos a conversar, ao que ele passou a narrar sua história pouco a pouco. Como de praxe, esse primeiro contato entre dois Ausländer começou com uma ou outra pergunta sobre nossas origens; disse-me que vinha de "America". Acenei a cabeça concordando, e perguntei a cidade. "New Haven, Connecticut", respondeu. Percebeu que eu não sabia do que ele estava falando, e completou dizendo que vinha da mesma cidadezinha onde ficava a Yalethat Ivy League University, y’know?

Empolguei-me e perguntei se ele estudava lá, mas tão rapidamente o Americano negou. Achei que fosse um gênio ou sei lá. De qualquer forma continuamos, e o Dean Moriarty interno do cara foi se revelando ali na minha frente. Achou bacana que falava com um brasileiro – even though you don’t really look or sound like a Brazilian, o que quer que ele quisesse dizer com isso.

Não sei dizer se ele também parecia mesmo com um americano ou não; o fato é que Berlin, pelo pouquíssimo que eu pude ver, era eclética o suficiente para que eu não pudesse ter qualquer primeira impressão válida sobre nada ou ninguém. E aí, veja só, o loiro tingido, sem muitos apelos comerciais, de camiseta xadrez, barba por fazer, boné e fones de ouvido no pescoço não me ajudava com pistas de onde vinha ou aonde pretendia ir. Ele tinha uns 23, 24 anos e era bem alto, embora estivesse sentado o tempo todo.

Já estávamos no segundo passo daquele clichezão que é uma primeira conversa, e Yale serviu como gancho – o Americano continuou então a explicar, afinal, o que ele estudava ou fazia: era estudante de Administração (Business ou alguma coisa por aí que eu consegui entender) na Finlândia. Pois é, na Finlândia.

But why Finland, if I may ask?” – e a resposta surpreendentemente estava de alguma forma ligada com a música eletrônica de lá – me perco nos subgêneros, então não me arrisco a dizer exatamente qual música eletrônica. De um jeito ou de outro, aparentemente ele curtia muito a cena que rolava lá e tão somente por isso ele se viu finalmente em Helsinki, Hanken ou algo assim. Pessoas com todo esse true e desprendimento me fascinam.

O assunto ainda perdurou por mais alguns minutos, e nesse ínterim ele me ouviu (até bastante interessado) falar sobre o que eu estudava, o Direito brasileiro, o Goethe-Institut, a Alemanha e aquela história toda. Era por isso, inclusive, que eu tinha vindo parar aqui, devo ter dito. How about you, though? We aren’t exactly in Helsinki, are we?” E aí voltamos para ele. A tal cena musical, outrora tão apelativa, andava meio chata. Por isso, ele e alguns dos seus amigos se juntaram uns meses antes, saíram da Finlândia e foram On the Road pela Europa, descobrir alguma coisa ou só respirar outros ares.

Lá pelas tantas, entre uma capital e outra, os Escandinavos que então acompanhavam meu mais novo amigo estadunidense passaram a usar drogas muito pesadas. Logo ele, que não ia muito mais longe que LSD, MDMA e cogumelos, não pôde ver outra opção a não ser se separar do bando. Desviou do caminho e estava sozinho em Berlin.

Confesso que isso me surpreendeu; lá fora, na calçada do lado do prédio onde estávamos, pairava um cenário que me lembrava a dúzia de contos e pequenas histórias de Bukowski que eu lera pouco antes de viajar. Vi prostitutas, bêbados, chapados, e um sujeito risonho de sorriso largo em cima de uma bicicleta anunciava aos berros que vendia maconha e cocaína. Havia um ar de despreocupação meio ébrio, e talvez eu achasse que ele casaria melhor com o cenário.

Nisso, fez-se um parêntesis e ouvi dele uma pergunta sobre onde estavam alojados os outros brasileiros e eu, mas o Americano não tinha dinheiro para ficar no Hostel. Nem no Hostel, nem em lugar nenhum; restavam-lhe no total 22 euros. Lembrei-me do pouco que dava para fazer com aquele dinheiro, e o questionei quanto a um plano.

O plano? Nenhum plano. Praticamente como diz um grande amigo meu, ele podia só ter me olhado e resumido tudo dizendo “eu sou o agora”. E os 22 euros tinham sido fruto até mesmo e algumas horas anteriores à conversa. Contou-me com uma cara meio preocupada que o seu entretenimento daquele dia fora vagar pela capital alemã perguntando se alguém tinha alguma coisa que ele podia fazer por dinheiro. O Dean Moriarty de tênis Vans no pé diante de mim concluiu dizendo que estava meio que de favores de estranhos, que cediam um sofá nos dias que ele não achava um jeito de juntar uma grana. E agora? Quem sabe Old Bull Lee ou Sal Paradise apareceriam por ali às quatro da manhã... e faltavam algumas horas até isso, muito tinha para acontecer ainda. Ainda assim, o que ele poderia fazer, nicht wahr?

--
O Americano Finlandês de Berlin em outras histórias:

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Meias verdades e pigarros

I

Sehnsucht
ist nichts Anders als
verzweifelte Flucht.

II

A luz que fica impressa na retina,
como o desprezo por tudo o que é rotina,
e os motivos que permeiam minhas escolhas,
são fumaça a elevar-se por entre as folhas
que o sol ilumina e se desfaz em novelo.
Tudo o que eu gostaria, mas não sei fazê-lo,
como em poemas de Drummond e livros antigos,
e saudade que tenho dos meus amigos,
é a meia-verdade desmentida por um pigarro
e minha vontade de acender outro cigarro.

III

O valor da vontade incerta,
da pretensão e do vazio,
não são à noite mais do que silêncio e frio.

Brindes enfim à indiferença
e à alegria do ébrio,
tão intensa.