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quarta-feira, 6 de março de 2013

02.2013 ~ 03.2013: aqui

--
aqui,

com ar afoito, fevereiro
resguarda o maior quinhão
de meu inquieto coração.

ele revive por inteiro
dia de sol praieiro
à Lagoa da Conceição.

aqui,

no prenúncio do fim do verão
recolho imagens de até então
e faço do teu álbum meu fiel companheiro

certo de que nada será passageiro
guardo-o salvo em meu gaveteiro
fazendo de tuas fotos minha definitiva inspiração.

aqui,

da minha pele a branquidão
reclama seu tom verdadeiro
de irritado vermelho arruaceiro.

anseio de novo corte certeiro,
feliz ofício da tua desocupada mão
a rasgar-me com satisfação.

aqui,

ensaio em segredo canções em alemão
e frases feitas de poetas do Rio de Janeiro
para ilustrar cada dia nosso em chão brasileiro

e antes que eu parta ao estrangeiro
faça-me mais desse pão de queijo mineiro
e evite que me consuma a inanição

aqui,

ainda contigo sobre o mesmo colchão
já me debato cheio dessa recente aflição:
sem ti (ou fiel cópia tua) não serei inteiro.

se puderes fazer-me o favor, pois não,
peça o quanto antes ao carteiro
para mandar-me tua igual reprodução

aqui,

onde o tempo é ligeiro
ao finzinho de fevereiro
resisto à tenaz premonição

dita por inquieto trapaceiro.
do relógio o fugaz ponteiro
não há mais ninguém que resista são

aqui

sob protesto de interno berreiro,
vou-me somente sob uma condição
já que em meu peito já há um vão:

jamais olvide-se em meio à multidão
que tornaremos à nossa pendente paixão,
avivar ansiosos nosso amor derradeiro.



segunda-feira, 23 de abril de 2012

Ah, vida.

"Herbsttag", de Ranier Maria Rilke*

Senhor: agora é tempo. O verão passou lento;
repousa tuas sombras sobre as horas de sol
e pelos corredores deixa soprar livre o vento.

Ordene que estejam cheias as últimas frutas
dê a elas mais dois dias sulistas
com afinco pressione-as
e cace a doçura restante do mais pesado vinho.

Quem agora não tiver uma casa, não mais a construirá;
Quem agora estiver sozinho, assim enfim permanecerá,
crescerá, há de ler, e longas cartas escrever
e vagará por avenidas aqui e lá
afoito, quando as folhas impelirem-se.

--

Diz-se que te fazer pequeno de nada serve ao mundo
Mas teu tamanho é descontado de cada desacerto.
És pequena jóia sem valor, quebrado e sem conserto
errado, inexato, contestável, parvo, imundo.

Talvez (na falta de comparação melhor)
é como os cartões postais nunca enviados
que tornaram-se contrariados
marca-páginas.

Ai, vida. E agora,
o que Drummond faria?

--

"Wer spricht von Siegen? Übersteh'n ist alles!"
http://mundoderascunhos.blogspot.com.br/2012/04/um-medo-peremptorio-do-ego.html

*
Original encontrado aqui: http://www.gutenberg.org/dirs/3/4/5/2/34521/34521-h/34521-h.htm
Tradução minha e do de.thefreedictionary.com

Es de dudar si el dilema

Como distração
sentei-me com um velho amigo:
Equilibrando livros na cabeça
debatemos os limites del capitalismo
("hay em el sistema capitalista
una tendencia inherente hacia la autodestruicción
es de dudar si el dilema (...)
puede ser neutralizado de esta manera").
Ignoramos, já bastante cansados, nossa incultura
sobre complicadas teorias econômicas.
Apenas perguntamo-nos lendo das páginas
em voz alta frases altivas:
¿Acharemos
algum dia
figuras de linguagem definitivas
que substituirão concisas
os percalços de nossas vidas inteiras?
Somos apenas grandessíssimos filhos-da-puta;
sabemos quanto valem nossas besteiras.
Quem dera fosse nossa existência uma luta
Quem dera tivéssemos uma guerra das antigas.



quarta-feira, 18 de abril de 2012

A ausência em metáforas kitsch

Domingo fui ao parque
as crianças brincavam aos montes
corriam ao redor do lago, da fonte
e os patos, despreocupados.
No gramado logo ao lado
(já era quase noite)
debatiam as pessoas em roda
sobre o porquê de passarem
e tão logo já desaparecerem
os cometas, essas quase-estrelas,
que devem ser metáfora kitsch para alguma coisa,
(sugeriu alguém de camiseta colorida)
mas o céu não deu mais nada a entender.
Pensamos bem e concluímos sem dizer
que, fosse o que fosse aquilo diante de nós,
sentiremos profundamente sua ausência
se ousar não voltar
para que em brados a recebamos;
contaremos os dias sem dar certeza
de que ao cabo de mais sete dias
estará tudo lá como deixamos.
Outro camarada acendeu um cigarro.
Ele não soube dizer se, na verdade,
não era aquilo alguma outra coisa
que podia eventualmente tê-lo ocorrido,
talvez um satélite ou quiçá um meteorito.
Enfim lamentamos como tudo é tão fugaz
— se ao menos nos deixassem algo escrito!

(O que começou como devaneio
tornou-se disfarçadamente frequente desalento
que volta e meia surpreende-me desatento.
Há uma boa razão para tocar o violoncelo
e é uma pena que não tenhamos tudo agora
por maior que seja a fantasia de qualquer tentativa.
Serei claro: meu lirismo namorador, político
raquítico e sifilítico lastima sinceramente
essa ausência que ameaça tornar-se definitiva.)
--

Ausências são sempre superlativas:
http://mundoderascunhos.blogspot.com.br/2012/04/abwesenheit.html

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Her eyes
— a maze.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Depois das duas da manhã


A noite por aqui desconhece o afã
e o ponteiro do relógio vai ficando desacreditado
depois das duas da manhã.
Vou-me esquecendo do mundo além da janela
e o assunto (fora a rima) volta-se a ela:
breve madrugada.

Eis o absurdo e o abismo, batendo a meus umbrais.
(Já passa da meia-noite, mas o corvo não vem.)*
Eles perdem-se num infinito de estrelas e fractais,
mas o infinito vale de quase nada
durante a madrugada.

Vem a mim inclusive um certo fantasma suicida,
triste conhecido ainda vivo.
Toda essa hipocrisia arrependida
é quase, eu diria, como nossas outras vidas inventadas:
vão-se conforme findam as madrugadas.

Não sei mais. Fora o suspiro e essa conversa desventurada,
Surgem estrofes (sem métrica) e personagens
que se multiplicam antes que consiga deixar a ideia esboçada.
Mas ideias que vêm são menos que nada
se só vêm durante a madrugada.

Sinto-me enfim um grande pessimista.
Acordarei confuso e sem entender o ponto de vista,
que terá menos sentido ainda que tinha horas atrás.
Mas isso não há de ser nada.
Estamos diante do limiar da alvorada
— agora, ao fim da madrugada.

--

Mais poesia e madrugada: http://mundoderascunhos.blogspot.com/2012/02/distracao-tempo-e-lembrancas.html (A challenge accepted indeed!)


* E, como disse-me um amigo certa vez, referindo-se a alguma coisa (cuja referência nunca mais achei): "we're standing at the threshold of dawn". E complemento: vor der Schweile der Dämmerung stehen wir!

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Meias verdades e pigarros

I

Sehnsucht
ist nichts Anders als
verzweifelte Flucht.

II

A luz que fica impressa na retina,
como o desprezo por tudo o que é rotina,
e os motivos que permeiam minhas escolhas,
são fumaça a elevar-se por entre as folhas
que o sol ilumina e se desfaz em novelo.
Tudo o que eu gostaria, mas não sei fazê-lo,
como em poemas de Drummond e livros antigos,
e saudade que tenho dos meus amigos,
é a meia-verdade desmentida por um pigarro
e minha vontade de acender outro cigarro.

III

O valor da vontade incerta,
da pretensão e do vazio,
não são à noite mais do que silêncio e frio.

Brindes enfim à indiferença
e à alegria do ébrio,
tão intensa.