quinta-feira, 14 de junho de 2012

Pasteur pipettes


O mundo é um conta-gotas colossal de histórias que morrerão junto com seus protagonistas: há um parágrafo em cada esquina, sobre cada lençol manchado, por trás de todos os suéteres rasgados e inclusive à frente das mesas de madeira de demolição. Nossas reclamações aborrecidas revelam aparentes confissão de almas vazias, mas há na verdade menos almas vazias que tatuagens no corpo do conservador recluso — e por isso somos todos palhaços em um romance russo que não vai ser lido, porque o hábito de ler perdeu-se com o tempo. Tampouco há tempo para perder com traduções, eufemismos e parêntesis, e infelizmente não haverá ninguém para deixar notas detalhadas sobre os carecas enfurecidos que estouram garrafas de Heineken nas cabeças uns dos outros em bares sujos por aí, ainda que tenham passado suas vidas lendo extensos tratados de sociologia. Ansiamos pelas autobiografias que surgirão para contar fatos notórios e sabidos, mas teremos ao final uma decepção de 200 páginas e 50 capítulos, cuja edição mais caprichada nunca chegará a prateleira central da livraria catarinense e talvez venderá menos que aquela compilação de contos de um blumenauense (à venda sobre a mesa de centro no consulado). 

Nossa cabeça é um infinito conta-gotas de histórias que morrerão conosco: enquanto nos entretemos até a morte, acumula-se o número de paginas que você poderia estar escrevendo (e eu, lendo). Devíamos estar registrando em meu teclado ergométrico cada passo daquele meu conhecido que se parece com um lêmure  ao invés de perder tempo fazendo mais café. Devíamos estar construindo monumentais obras rimadas para contemplar quando nossa autoestima estiver baixa, e devíamos estar aprendendo latim — ah, a vida é tão sem propósito quando gastamos fios de cabelo pensando na morte. Vamos lá, é hora de tirar mais fotos para entreter nossos netos entediados: quem sabe um dia eles se deparem com álbuns de fotos perdidos em um álbum no canto da casa.

São também conta-gotas as impressões de mundo que ouvi de meus melhores amigos: quero conhecer mais uma vez todas as histórias e repassar em minha mente longos monólogos sobre o sol da meia noite. Vou aprender a falar somente frases de efeito com entonação engraçada. Escreverei um longo diário fictício que se encerrará em uma praça grande e vermelha onde olhares são transcritos em alfabeto cirílico, e contemplarei frequentemente em devaneios a estátua do Almirante Nelson no topo de sua coluna, gritando a vitória rimada em gíria cockney. Vou escrever sobre Montreal sem nunca ter ido para o Canadá. Vou vestir um terno e atear fogo em mim. E ao final do dia, ao olhar-me no espelho, vou cruzar os dedos, esperando que dure para sempre o ar que enche meus pulmões.

Todas as frases são — veja só — conta-gotas pingando seus pensamentos de pouco em pouco. Assim, longos diálogos fazem menos sentido que esses frases,  e por isso o trabalho é a melhor distração do que um blog. Mas nada disso é suficiente. Então, ainda que eu queira passar meus dias escrevendo metáforas ruins e longas frases que não fazem sentido, prefiro reduzir-me ao pragmático.


Em outras palavras, é minha deixa para parar de escrever besteira, e amanhã mesmo irei ao correio enviar-te um conta-gotas junto de um bilhete (eis aí, enfim, algo que valha a pena ser escrito). E antes que me esqueça: antes de enviar o conta-gotas de volta, prometa enchê-lo até a metade com seu perfume, para espalhar pela casa em tua ausência. 

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Where droppers are poetry,
where texts make sense:
http://mundoderascunhos.blogspot.com.br/2012/06/acucar-ou-adocante.html




domingo, 20 de maio de 2012

Os suspiros de Dona Célia (ou: Bob Dylan, chuva e insônia)

É de se perguntar se algum dia Bob Dylan realmente recebeu de Suze Rotolo pelo correio aquelas botas de couro italiano, junto com o ouro das montanhas de Madrid ou da costa de Barcelona. Nunca saberei ao certo, mas gosto de imaginar que ele combateu a insônia até desfalecer em 1964, e que no dia 25 de fevereiro de 2011, um grande poeta em algum lugar revirou-se na cama sem adormecer.



Em uma realidade muito distante de tudo isso — um ano, dois meses e cinco dias depois — conheço Dona Célia esperando o ônibus vir em uma rua longe do centro de Blumenau. Estou com vontade de ouvir o “The Times Are A-Changin’” que tenho no celular, mas esqueci os fones de ouvido. Aí estava a oportunidade de jogar conversa fora.

Quando sento-me no banco, Dona Célia (que definitivamente tinha cara de ‘Dona Célia’, mas é um nome hipotético, porque ela nunca se apresentou) não diz nada. Mas eu também espero pelo 31 e estou impaciente. Tenho dormido pouco, por insônia e noites em claro olhando para o teto, e também porque andei me aventurando ébrio pela sexta-feira à noite, então estou ansioso para chegar logo em casa. Por isso preciso saber:
“Será que demora o 31?”, digo, tentando não ser rude.
“Olha, meu filho”, seu sorriso é tão amarelado e torto quanto acolhedor, “deve vir logo, porque estou aqui há um tempo e ele ainda não apareceu.”
O perfume dela me lembra o da minha avó.
“Ah, ok. E que horas são?”
Era 11:34 da manhã, ela me informa. Antes de chegar no próximo minuto, no entanto, ela volta-se ao estojo bastante grande que carrego comigo.
 “É um violão? Não gosto muito de violão, mas—“
“Não, é um violoncelo”, retribuo com meu sorriso de café, e ela continua ainda na mesma frase:
“—ah, violão não gosto muito, mas esse violoncelo tem som bonito. Tem sim, é. O violoncelo”, e gesticula pinçando as cordas do seu instrumento imaginário.
“Violoncelo se toca com o arco, não é? Quero dizer,” e aí toco um arco imaginário no instrumento guardado, subentendendo provavelmente que o gesto dela não estava errado, mas não estava totalmente certo também. Mas disse por dizer, também porque tinha sono, e completo: “…né?”
“Ah, sim. Arco, é. Pois é, música clássica é bem bonita. Você gosta de música clássica? É bonito, não é?”, ela fala sem deixar muita oportunidade de dizer algo entre suas frases. “Sempre deixei meus netos ouvindo música clássica, ouvindo o… como é mesmo o nome? É bem bonito sim, com os violinos— ah, não me lembro do nome do cara. Mas gosto muito! Sabe, eu vi uma entrevista no Jô esses dias (você assiste o Jô?); tinha um maestro que ficou sem movimento das mãos, assim, ó. Conhece?”
 Não conheço, infelizmente. A conversa é interessante, e ela continua:
“Ah, mas você tinha que ter visto. Ele tinha um, como se diz?” Ela então gesticula apontando para o antebraço, e para o cérebro, abrindo e fechando as mãos, “e aí tiveram que fazer uma cirurgia, porque ele não conseguia tocar piano (ele tocava piano), e aí mostrou ele fazendo a cirurgia, e aí mesmo na cirurgia ele já estava começando a mexer os dedos!”
Ela está abrindo e fechando a mão, com o punho voltado para baixo. A pausa é enfática:
“Mas aí ele apareceu no Jô e tocou a música. Tocou o piano dele lá. E…é, foi muito bonito. Muito bonito!, até me emocionei”.
Não podia ver seus olhos, porque os óculos escuros grandes com as lentes em degradê ocultavam a maior parte de seu rosto. Sei, ainda assim, que ela suspirou bastante desconsolada, ajeitou o cabelo parcialmente tingido de castanho claro, e voltou-se para mim:
“Bem triste. Mas meus netos gostam. Né, porque eles gostam daquelas músicas deles.” Às vezes faltavam-lhe palavras. Mas ela prosseguia: “Você sabe, aquelas músicas deles. Mas gostam de música clássica, é.”

NIsso veio nosso 31, e acabei sentando-me distante dela, mas trocamos sorrisos quando nos cruzamos no corredor. Demoro para me ajeitar, e noto que o assunto morreu no ponto. Até a hora em  que ela grita para alguém mais à frente para que apertem o botão, porque ela tem que descer, e então vira-se para meu lado:
“João Carlos Martins!”
“Como?”
“João Carlos Martis”, ela exclama mais pausadamente, “é o nome do maestro. O pianista!”

E desceu no seu ponto.

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 João Carlos Martins, como fui olhar no Google mais tarde, é realmente um músico que teve um nervo rompido. Era pianista, e depois, por força das circunstâncias, tornou-se maestro. Sinto um repentino pico de empatia: como deve ser perder o movimento de uma mão? Qual é a dor de romper um nervo? Teria João Carlos Gandra da Silva Martins (é seu nome completo) contemplado a insônia sentado em sua cama, completamente perdido em uma repentina mudança de perspectiva?

Mas há mais por vir que angústia. Diz aqui em uma de suas breves biografias pela internet que o maestro é um grande exemplo de superação. Conta-se que uma noite reviu em sonho um conhecido regente chamando-lhe para tocar o piano, e ao acordar (posso imaginar claramente), viu-se novamente na tormenta de uma perspectiva nova. Sentiu-se no ímpeto de sentar-se ao seu instrumento tão querido, mesmo com as mãos deformadas, porque há mais por aí do que dissera a si mesmo em sua insônia violenta. To die, to sleep no more. Ou, melhor dizendo: to live, to sleep no more.

Entretanto, enquanto ainda estava no caminho para casa no ônibus que chacoalhava e jogava o cello de um lado para o outro, essa história do maestro ainda era desconhecida. O meu entretenimento resumia-se a imaginar de onde viria o suspiro profundo de Dona Célia. Ainda assim, era difícil de supor qual mal eventualmente teria lhe paralisado a mão, ainda que metaforicamente, até porque não sabia nem que cor tinham seus olhos. Ela somente me dava alguma pista por fazer-me lembrar de minha avó, e perguntei-me se ela também enfrentava o desalento da morte que se aproxima, cada vez menos sutil.

À medida que avançamos pelos bairros, a paisagem ficou cada vez menos bucólica (chegamos a passar até por um pasto), e fico feliz de ver as casinhas de colonos alemães. Fico feliz de poder andar sem medo com meu violoncelo por aí, e não sei dizer o que há para tirar o sono de quem está ao redor. Blumenau, apesar do que disse outro dia meu vizinho desinformado, é uma ótima cidade. E pairou a pergunta: em tempos de austeridade distante e comissões da verdade, qual é o motivo de insônia de meus conterrâneos? Em momentos de temor pelo futuro que parece prestes a ruir na metrópole, o que se passa por aqui? The times are really a-changing? Ou sou só eu que tenho tomado café demais?

Virei-me para os outros que também sentavam no 31. Havia, para começar, uma moça de tez negra muito bonita que balançava a cabeça com a música que ouvia no celular. Alguém sabe o que lhe tira o sono? E o homem sério atrás do óculos e bigode, que ensaiava uma conversa movendo os lábios sem pronunciar nada? E agora, José? Os personagens são muitos: havia na rua uma adolescente muito bonita, que ajeitava o cabelo insistentemente e esperava por alguma coisa. Havia também aquele sujeito baixinho com uniforme de futebol de salão que sempre está fazendo embaixadinhas no semáforo, e me surpreendi ao ver como alguém conseguia fazer tantos truques com a bola e manter um aspecto melancólico daquele jeito. Vi ainda um motociclista que vestia uma réplica do capacete do Ayrton Senna. Aposto quanto você quiser que a nostalgia dele também é gigante.

Também por ali havia aqueles menos atentos a esses detalhes, como um pessoal com vestes da Cruz Azul recolhendo doações para usuários de drogas. Não pareciam lembrar da sua causa, que em algum lugar alguém definhava com a falta do crack, mas não os culpo. Seus sorrisos são um alívio para os transeuntes e motoristas que iam sei lá aonde num sábado de manhã. Quem sabe a insônia não cause tanta perturbação para essas pessoas, Deus lhes pague.

De qualquer forma, os exemplos continuam, como no dia que vi um rabino junto de um grupo de padres, e um bispo, caminhando risonhos pelo Aeroporto Salgado Filho. A vida, veja só, está cheia de personagens interessantes, e a empatia supera qualquer outro tipo de escapismo.

Carlos Fuentes, autor que faleceu recentemente (“que Deus o tenha”), por outro lado, estava falando ontem em uma entrevista reprisada na TV sobre como Machado de Assis seguiu a tradição de Cervantes. Explico: esses autores, conforme disse o escritor mexicano, exploravam muito o direito de inventarmos nossos próprios universos. O naturalismo de certos autores latino-americanos, segundo ele, é supérfluo, porque não precisamos repetir frases de pessoas de carne e osso para dar verossimilhança aos textos.

Mas discordo em parte, porque retratar esses personagens tristes (ou teorizar sobre suas vidas, como Marta gostava tanto de fazer) é um passatempo fascinante. Até esqueço dos habitantes da minha própria mente: amores e desamores recentes, que ainda aceleram meu coração e me tiram o fôlego; o câncer de mi abuelo; o futuro promissor que às vezes ameaça apagar como um cigarro que vira cinzas; e a minha vontade de correr na contramão, atrapalhando o trânsito.

Enfim, há uma miscelânea de sentimentos e suspiros nos ares, até para um sábado de manhã. E tudo isso fica latente no domingo à tarde, especialmente se o tempo estiver fechado. Sou tomado pela saudade do Bob Dylan por uma de suas ex-namoradas, juntamente com a melancolia velada ou indiferença contente das pessoas que habitam nossas vidas como figurantes de um filme no Canal Brasil.

No entanto, acabo por imaginar a angústia que o pianista de mão engalfinhada uma vez chegou a sentir, e vejo que seu grande legado é maior que a música, porque ele é, afinal, um exemplo de superação e persistência. Com isso, vamos todos rir, porque a insônia só nos dará tristeza no dia seguinte e há mais por aí que podemos imaginar. To live, to sleep no more: estamos no limiar da alvorada.

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Ainda assim, até o canto do sabiá é triste quando chove. É verdade, look it up.

Ou espere até setembro.

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...and by a sleep, to say we end the heart-ache:
http://mundoderascunhos.blogspot.com.br/

*

domingo, 13 de maio de 2012

Like freckles in your arms


(É tempo de escrever coisas que provavelmente ninguém mais vai entender ou mesmo ler.)

Há alguns dias, não muito tempo depois de contestar diariamente um arrependimento que me adoecia as ideias, tive a oportunidade de dar algumas voltas de carro, na busca de qualquer lugar afastado de onde fosse possível ver o céu. Era a ocasião de aparecer a maior lua do ano, a "supermoon", que veio não muito maior que a lua normal. As estrelas não contiveram o brilho também intenso, e acabamos por ver um céu bastante inspirado.

Estrelas multiplicam-se no escuro. Diz-se que, em sua maior visibilidade e clareza, são um grande guia de localização, porque sua disposição (ainda que em constante movimento) está lá como complicadas indicações de direção, e suspeito que se formos longe o suficiente das luzes da cidade, podemos ver até a via láctea (“...deve ser uma visão e tanto”). É quase como no livro de rabiscos de um maníaco, cheio de itens coloridos que não têm nenhuma relação aparente entre si, nenhum esquema claramente distinguível. De qualquer forma, por mais bonito que fosse, não soube dizer, no entanto, qual era o propósito de imaginar e dar nomes a conjuntos de estrelas. Fui então ver um livro ou outro (“A Walk Through the Southern Sky” foi um princípio bastante elucidativo), e dizia lá que constelações são mapas disfarçados de desenhos e poesia grega antiga, com odes a ninfas e caçadores correndo atrás de Afrodite*. Em outras palavras, três pontos brilhantes em linha reta, outros quatro pontos arqueados, mais um punhado espalhado, e pronto: lá está a constelação de Sagitário, nascendo ao leste, enquanto Órion se põe ao oeste, fugindo do centauro que protege Hércules. O cruzeiro do sul debaixo do Centauro, por outro lado, não tem nenhuma lenda a justificá-lo.

O mais fascinante disso é que nenhuma das constelações é óbvia. Até o cruzeiro do sul é uma cruz bastante questionável, mesmo porque poderia ser qualquer outra coisa pelo padrão dos outros desenhos. Claro, a ideia de imaginar desenhos ao redor das estrelas foi só um método muito inteligente para identificar padrões em pontos bastante esparsos aleatoriamente, então tudo isso é uma questão mais secundária. Ainda assim, é bem aí nesse ponto secundário — porque às vezes o secundário é mais divertido que todo o resto — onde começa esse divertido exercício de associar qualquer nova ideia às estrelas, e permitimo-nos a abandonar os mapas astronômicos que já estão aí a tanto tempo. Imaginemos livremente o que terá o céu a nos dizer nessa ou naquela noite, e as metáforas serão em mais número que as próprias estrelas. Veja, gosto de pensar, para começar, que essa coisa transitória e fugidia do lento movimento das estrelhas ao longo dos meses é uma metade de nossas vidas, sendo a outra o eterno e o imútavel, posto que as estrelas sempre voltam aonde já estiveram. Capisci?

Ou: podemos inventar sozinhos um mapa de estrelas, a título de nos orientar com sinais não visiveis a olho nu, e teríamos, então, nossa própria coleção de constelações como memorabilia. Cada mês, uma recordação: Abril, Eros e Dionísio; Maio, Thanatos e Psiquê. Ou quem sabe até algo menos pretensioso, e daríamos a cada trio de estrela uma música do Beirut, ou uma canção em inglês para cada plêiade, e as maiores teriam nomes em alemão: “Sehnsucht”, “Abwesenheit”, “Schweigsamkeit”, “Die Nacht”, "Herbstabend", ou sei lá mais o quê. A única exceção seriam aquelas que estiverem dispostas no céu como as pintas de nossos braços, que terão nossos nomes de verdade.

De qualquer forma, há de ser algo bastante interessante: nossa orientação por um tracejado de linhas imaginárias, livros de poesia, e promessas — cumpridas ou não. Suerte!
  
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*Um dos muitos sonetos de Camões, achado ao acaso:

Deixa, Apolo, o correr tão apressado,
Não sigas essa Ninfa tão ufano,
Não te leva o Amor, leva-te o engano
Com sombras de algum bem a mal dobrado.

E quando seja Amor será forçado,
E se forçado for, será teu dano:
Um parecer não queiras mais que humano,
Em um Silvestre adorno ver tornado.

Não percas por um vão contentamento
A vista que te faz viver contente:
Modera em teu favor o pensamento.

Porque menos mal é tendo-a presente,
Sofrer sua crueza, e teu tormento,
Que sentir sua ausência eternamente.

“Up a tree in the park at night with a Hedgehog”, últimas linhas:

"Oh, look at that.
Stars.
I didn't notice them before.
It's funny how people always strive for the most hyperbolic, poetical and grandiose terms when trying to describe stars and how far away they are. It's all vast empty reaches of space and aeons of light-years when all anyone really needs to say is they're a long way away.
A long way away is a long way.
But they're not really a long way away either.
They're a long time ago. They don't exist any more. Some of them went boom before Adam was a boy. What we're looking at are the memories of stars.
 But they're beautiful just the same."


--

* Are there patterns in our skies, are patters only in our eyes?

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Ah, vida.

"Herbsttag", de Ranier Maria Rilke*

Senhor: agora é tempo. O verão passou lento;
repousa tuas sombras sobre as horas de sol
e pelos corredores deixa soprar livre o vento.

Ordene que estejam cheias as últimas frutas
dê a elas mais dois dias sulistas
com afinco pressione-as
e cace a doçura restante do mais pesado vinho.

Quem agora não tiver uma casa, não mais a construirá;
Quem agora estiver sozinho, assim enfim permanecerá,
crescerá, há de ler, e longas cartas escrever
e vagará por avenidas aqui e lá
afoito, quando as folhas impelirem-se.

--

Diz-se que te fazer pequeno de nada serve ao mundo
Mas teu tamanho é descontado de cada desacerto.
És pequena jóia sem valor, quebrado e sem conserto
errado, inexato, contestável, parvo, imundo.

Talvez (na falta de comparação melhor)
é como os cartões postais nunca enviados
que tornaram-se contrariados
marca-páginas.

Ai, vida. E agora,
o que Drummond faria?

--

"Wer spricht von Siegen? Übersteh'n ist alles!"
http://mundoderascunhos.blogspot.com.br/2012/04/um-medo-peremptorio-do-ego.html

*
Original encontrado aqui: http://www.gutenberg.org/dirs/3/4/5/2/34521/34521-h/34521-h.htm
Tradução minha e do de.thefreedictionary.com

Es de dudar si el dilema

Como distração
sentei-me com um velho amigo:
Equilibrando livros na cabeça
debatemos os limites del capitalismo
("hay em el sistema capitalista
una tendencia inherente hacia la autodestruicción
es de dudar si el dilema (...)
puede ser neutralizado de esta manera").
Ignoramos, já bastante cansados, nossa incultura
sobre complicadas teorias econômicas.
Apenas perguntamo-nos lendo das páginas
em voz alta frases altivas:
¿Acharemos
algum dia
figuras de linguagem definitivas
que substituirão concisas
os percalços de nossas vidas inteiras?
Somos apenas grandessíssimos filhos-da-puta;
sabemos quanto valem nossas besteiras.
Quem dera fosse nossa existência uma luta
Quem dera tivéssemos uma guerra das antigas.



quarta-feira, 18 de abril de 2012

A ausência em metáforas kitsch

Domingo fui ao parque
as crianças brincavam aos montes
corriam ao redor do lago, da fonte
e os patos, despreocupados.
No gramado logo ao lado
(já era quase noite)
debatiam as pessoas em roda
sobre o porquê de passarem
e tão logo já desaparecerem
os cometas, essas quase-estrelas,
que devem ser metáfora kitsch para alguma coisa,
(sugeriu alguém de camiseta colorida)
mas o céu não deu mais nada a entender.
Pensamos bem e concluímos sem dizer
que, fosse o que fosse aquilo diante de nós,
sentiremos profundamente sua ausência
se ousar não voltar
para que em brados a recebamos;
contaremos os dias sem dar certeza
de que ao cabo de mais sete dias
estará tudo lá como deixamos.
Outro camarada acendeu um cigarro.
Ele não soube dizer se, na verdade,
não era aquilo alguma outra coisa
que podia eventualmente tê-lo ocorrido,
talvez um satélite ou quiçá um meteorito.
Enfim lamentamos como tudo é tão fugaz
— se ao menos nos deixassem algo escrito!

(O que começou como devaneio
tornou-se disfarçadamente frequente desalento
que volta e meia surpreende-me desatento.
Há uma boa razão para tocar o violoncelo
e é uma pena que não tenhamos tudo agora
por maior que seja a fantasia de qualquer tentativa.
Serei claro: meu lirismo namorador, político
raquítico e sifilítico lastima sinceramente
essa ausência que ameaça tornar-se definitiva.)
--

Ausências são sempre superlativas:
http://mundoderascunhos.blogspot.com.br/2012/04/abwesenheit.html

segunda-feira, 9 de abril de 2012

É preciso ir bastante alto para ver além dos limites de Blumenau


No rádio do carro em que estávamos (em algum ponto incerto entre Jaraguá do Sul e Blumenau) tocavam músicas da minha bandinha canadense favorita, cujas letras eu conhecia de cor. Perguntei-me então (bastante tolo) o porquê desses caras não terem nascido em Santa Catarina também, e percebi que ere essa a deixa do momento para passear nas minhas misconceptions de mundo.

Cruzávamos o nosso pequeno enclave gringo-brasileiro, perdido no meio do vale, bem aqui onde não é possível de ver nada além dos morros. Neste lugar abrem-se estradas por entre altos montes de terra (cuja altura não pôde ser estimada por André), e amontoados de casinhas junto a largos galpões brotam conforme surgem terras mais planas.

Falo sobre as colônias catarinenses, que (segundo consta em um dos livros de Darcy Ribeiro) são filhas da inexplicável persistência dos imigrantes — algo só compreensível se pensarmos na angústia e penúria pela qual paralelamente passava a terra-mãe de outrora. (“A Europa já foi mais legal”, quem sabe não devem ter pensado.)

Por isso imagino clareiras sendo abertas a duras penas, somente para criar uma nova ideia de pátria bem no meio do mato, que chamariam ora de Brasil e ora de Brasilien. Bem aqui, onde mais tarde estaríamos confusos e divididos entre a tela de televisões (ou computadores) e nossa cara no espelho, gerações pareciam decidir involuntariamente o destino do estado em relação ao resto do país. Era muito mais importante saber em que pé estavam os brasileiros do lado de lá, e até que ponto podia-se continuar com velhos costumes. Diria até que nada do que nos preocupa agora era visto lá como problema, porque talvez se soubesse muito bem quem era quem, e o porquê de aqui estarmos sequer era mistério. As colônias de Santa Catarina eram irredutíveis, jamais um limbo dos estados ao redor.

De qualquer forma, eu ocupava o lugar do passageiro, e enquanto essa historinha toda passava por minha cabeça, decidíamos qual entrada da próxima cidade tomaríamos. Ocorreu-me então que não tenho muitos retratos de ancestrais na parede de casa. Mas voltei a distrair-me com as indústrias, porque depois de mais de uma hora rodando com o carro, deparamo-nos com enormes silos de arroz que uma das cidadezinhas abriga, e passei a observar o pessoal que ocupava os lados da rodovia. Perdi a conta de quantas bicicletas vi passar por bairros inteiros longe de tudo. Corríamos sob o calor do sol e embaixo da sombra de igrejas esparsas; estávamos definitivamente atravessando o vale, no interior de Santa Catarina.

Mas essa questão dos colonos é persistente, e acabo ficando nela. Arrisco-me a pensar que parte desse pessoal tornou-se um rude empresariado novo-rico, mesmo que simpático vez ou outra. Mas por que eram assim? O que fazia este pessoal depois de 1900? Depois que esqueceram de que o brasileirismo é inventado, tornaram-se brasileiros de verdade? Ser daqui é ser de lugar nenhum e de todos os lugares ao mesmo tempo? E enquanto o país descobria-se em 1922, época em que cariocas, mineiros e paulistas tomavam navios para qualquer lugar no estrangeiro afoitos em busca da antropofagia, o que se fazia entre o litoral e o oeste catarinense? Será que Vitor Meirelles ou Cruz e Souza estavam distantes demais? Parece que as primeiras incursões artísticas dos ex-colonos foram tão tímidas que ainda não se ouve nada a respeito, e os segredos de nossos avôs estão começando a ser escritos aos poucos, inspirados por autores reclusos e aspirantes a Lindolf Bell. Os novos-ricos não ligam, mas pode-se ver os primeiros suspiros poéticos abrigados nos túneis que há por debaixo das ruas blumenauenses — eles são tanto lenda quanto como distração no caminho para o shopping-center.

Está aí a resposta: distração. Isso, ou nosso grande problema é mesmo o amor próprio.

A falta de amor-próprio, na verdade, parece ser uma sugestão bastante conveniente. Isso significa que, por um lado, não temos voz própria porque temos vergonha do som dessa voz, e isso explicaria também o gosto de fluoxetina com ansiolíticos que o rio Itajaí-Açu deve ter.

Ainda assim, também é bom-senso sugerir que desconheço os autores daqui, e não saberia dizer o nome de mais de dez músicos, dez atores ou dez artistas plásticos. Então, por outro lado, quem sabe sou eu que estou a condenar meu próprio mundinho inventado, e só não sei mais discernir o que presta na televisão, achando que isso é reflexo real do que se passa lá fora. Paradoxalmente, o amor-próprio talvez falte mesmo a mim, e não ao resto das pessoas, que não se importam com a falta uma voz forte que diga de onde vem. "Vens de onde, gajo? Deve ser de Blumenau, com toda essa pompa, mas sem nada para dizer. Desliga a televisão e escreve logo teu livro."

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Amor-próprio — exacerbação exagerada e pleonástica, tom de habitantes de cidades inventadas, ou bom-senso de viver sozinho. No-one has it all em: