quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

"Repetition" and "Teeth", by Phil Kaye

From some of his performances and his TEDxTalk, as seen on YouTube:


1.

My mother taught me this trick: if you repeat something over and over again, it loses its meaning.

For example: “Homework, homework, homework homework homework, —“, see? Nothing. Our lives, she said, are the same way. You watch the sunset too often and it just becomes 6 pm. You make the same mistake over and over and you’ll stop calling it a mistake. If you just “wake up, wake up, wake up, wake up”, one day you’ll forget why.  I should’ve known: nothing is forever.

My parents left each other when I was 7 years old. Before their last argument they’ve sent me off to the neighbor’s house, like some astronaut jetticing from the shuttle. When I came back, there was no gravity at our home. I imagined it as an accident: when I left, they whispered “I love you” so many times over, that they forgot what it meant. “Family, family, family, family…”

My mother taught me this trick, that if you repeat something over and over again, it loses its meaning. This became my favorite game. It made the sting of words evaporate: “separation, separation, separation—“, see? Nothing! “Apart, apart, apart, apart—“, see? Nothing!

I’m an injured handyman now. I work with words, all day— shut up! I know the irony. When I was young, I was taught that the trick to dominating language was breaking it down, convincing it was worthless. “I love you, I love you, I love you, I love you—“, see? Nothing!

Soon after my parents’ divorce, I developed a stutter. Fate is a cruel and efficient tutor. There is no escape in stutter. You can feel the meaning of every word drag itself up your throat. “S-s-separation”. Stutter is a cage made of mirrors. Every “what you said?”, every “just, take your time”; every “c’mon, kid, spit it out!” is a glaring reflection of a existence  that you cannot escape. Every awful moment trips over its own announcement again, and again, and again, until it just hangs there in the center of the room, as if what you were to say had no gravity at all.

Mom, dad: I’m not wasteful with my words anymore. Even now, after hundreds of hours practicing away my stutter, I can still feel the claw of meaning at the bottom of my throat. Listen to me. I heard that even in space you can hear the scratch of a “I-, I-, I-, I… love you.”

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2.

“Ojīchama” is what I call my Japanese grandfather. In 1945 his Tokyo home was burned to the ground. “Granpy” is what I call my American grandpa. In 1945 he was serving in the USS Shangri-la, sending off American bomber pilots to burn down Japanese houses. Our jaws have not yet healed.

1906, Poland: Granpy’s father is hiding in an oven. He doesn’t know the irony of that yet. He’s heard men singing on the streets below— hyenas, my family calls them. After celebration drinks and songs, the outside townspeople come into the Jewish ghetto for a celebration beating: molar fireworks and eyelid explosions. Even when Granpy’s father grows up, the sound of sudden song breaks his body into a sweat. Fear of joy is the darkest of captivities.

1975, Tokyo: my father, the long haired student with a penchant for sexual innuendo, meets Keiko Hori, a well dressed banker which forgets the choruses to her favorite songs. 12 years later they give birth to a lengthy light bulb.

1999, California: my mother speaks to me in Japanese. Most days I don’t have the strength to ask her to translate the big words. “They’ve burned that house down, Mother. Don’t you remember?”

1771, Prague: in the heart of the city, there’s a Jewish cemetery: the only plot of land where Granpy’s ancestors were allowed to be buried. When they ran out of room, they had no choice but to stack dead bodies, one on top of another. Now there are hills made from graves piled 12 deep; individual tombstones, jutting out crooked like valiant teeth, emerging from a jaw left to rot.

1985, my parent’s wedding: the two families sit together, smiling wider than they need to. You must be so happy…

1999: I sit with Granpy’s cousin, 91 years old and dressed in full uniform. I beg with him to until the knots in his brow. He says: “Hate is a strong word. But it’s the only strength that I have left. How am I to forgive the men that severed the trunk of my family tree, and used it as timber to warm the faces of their own children?”

2010: Granpy and I sit together to watch his favorite — baseball. In the infertile glow of the television I see his face wet. Granpy sits on his wheelchair, teeth gasping out of his gums like valiant tombstones emerging from a cemetery left to rot. The teeth sit staring at me, and I can read them: Louie Burgman, killed at Auschwitz. Sarah Liz, killed at Dachau. William Kaye, killed at the coast of Okinawa.

“I will never forget what is happened to our family, Granpy”, and he looks at me with the surprised innocence of a child struck for the first time.

“Phillip, forgetting is the only gift I wish to give you. I have given away my only son, trying to bury my hate in a cemetery which is already overflowing. There are nights I’m kept awake by the birthday songs of children I chose not to let live… they all look like you. A plague on both your houses. They have made worms’ meat of me.”
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domingo, 25 de novembro de 2012

Esquecer-se: terríveis vultos (pt. 1)


Embora me considere um cara bastante introspectivo e entusiasta de uma boa dose de contemplação das paredes, uma das minhas maiores fontes de entretenimento certamente é encontrar pessoas com uma boa história. Tenho dois colegas bastante próximos que têm sido fontes constantes desse tipo de momento, e frequentemente me vejo diante de compilações verdadeiramente inusitadas de largas e detalhadas descrições de relevantes perspectivas no interior do Rio Grande do Sul e no litoral catarinense.

Por exemplo: um deles passou a ser recentemente o cara que já esteve em um cargo de gerência de uma sucursal na Índia aos 19 anos, comandando, entre outros, um sujeito que achava ideal manter o crachá de identificação pendurada no cinto, bem entre as duas pernas. Outra história memorável, pela qual me deixo convencer sempre, é aquela sobre como quase foi futebolista semiprofissional em alguma cidadezinha australiana. As pessoas são realmente surpreendentes de vez em quando.

O outro passou muito perto de padecer de febre em distantes aeroportos, chegando próximo de desfalecer em uma coleção de cidades e hostels mediterrâneos. Por sinal, parece-me que encontrou amor de verdade — ou assim gosto de entender o que me conta — e agora vive de felizes esperanças e eventuais tristes constatações. Nunca deixa de ser uma excelente conversa, precisamente por isso.

Aliás, no ensejo de alguma dessas narrativas, deixei-me levar por devaneios em uma boa meia hora de expediente outro dia, quando me foi explicado longamente como eram os detalhes nas paredes de mármore do Taj-Mahal. “É o tipo de coisa que não dá pra entender até que estejas lá”, diz ele. “Fiquei de cara. Mesmo.” As gravuras da fachada e a estrutura da construção – naquilo que a internet chama de uma das obras primas do estilo arquitetônico correspondente, como fui ler depois – são praticamente incontáveis, e todo o conjunto desenha a epítome da metáfora à qual voltamos sempre: viajar é partir para surpreender-se. Todas as culturas em algum momento  estarão à espera com algum memorial monumental, atentas ao seu queixo caído.

Nisso ele continuou: há certas rodovias e estradas indianas à beira das quais crianças cadavericamente subnutridas deitam no meio-fio, entre lixo e sujeira. Nada particularmente idiossincrático, mas foi o suficiente para causar uma impressão e tanto em mim. E um pouco longe disso — mas em uma realidade não tão distante — os seus colegas de trabalho indianos gostavam de comer uma refeição apimentada só com a mão direita. Suas vidas são temperadas como suas refeições, e um ocidental desavisado não percebe isso até que queima a língua com o molho ardido. Enfim, suponho que não seja possível de manter uma convicção de pé quando alguém te olhar rindo e pronunciar com sotaque exótico que, veja só, o importante talvez não seja nada disso que você está querendo. Ele não precisa saber onde fica Santa Catarina, mas o indiano preza em sua casta uma realidade paralela a nossa — e é feliz à beça.

“Como assim? É um lance tipo o karma?”, pergunto, já conhecendo em parte o assunto, mas indagando do mesmo jeito. “É, por aí”, diz ele. “Castas e tal.” Ninguém lá é exatamente um poço de conformismo, mas não é difícil de imaginar que as pessoas tenham um espectro de perspectiva completamente diferente: quem morre sabendo que vai ter uma bela pós-vida, morre feliz. “E aí não faz mal que o cara morra na merda”, concluiu ele, pensativo.

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Esses meus dois colegas viajam logo, e amanhã não estarei aí. Despedi-me deles tão logo terminaram as narrativas sobre países longínquos e fusos horários opostos. A um deles, como de praxe, pedi um cartão-postal; ao outro, não disse nada, mas não foi necessário. “Não curto muito escrever”, ele acrescentou espontaneamente e riu.

Ah, é realmente uma pena: no meu pretenso costume de escrever vez ou outra as abstrações sem sentido, referências pouco claras, amores e desamores que acontecem por aqui, imagino que, se meu colega nunca parar para registrar, um dia as suas histórias serão esquecidas sem dó. Bom, por certo ele também não estava sentindo muita piedade das histórias. Até o questionei se não lamentava ter deixado de lado a oportunidade de ser o brasileiro futebolista ganhando uma grana na Austrália ou de viver um sonho bollywoodiano, mas não. “Foi uma fase, e daqui a pouco vou estar em Hamburgo trabalhando num emprego ‘da hora’, vais ver só”.

Minha fobia do esquecimento me engasgou.

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O turbilhão de memórias continua, mas a história passa a ser minha — estive em um casamento há pouco tempo. Melhor dizendo, o casamento do meu irmão, e um dos dias mais felizes que já pude viver. Havia no ar um clima bastante incrível de êxtase e genuína felicidade, impressionantemente não limitado ao casal. Talvez o padre tenha acertado ao dizer que estávamos celebrando o amor.

O lugar era bastante bonito, é importante não esquecer. A igreja de Gaspar é grande, alta, com pilastras majestosas, uma bela fachada, com cores vivas e gritantes, uma escadaria alta, e o altar simples, mas emocionante. Lá eu chorava, como bom padrinho. As pessoas iam entrando, e eu lá soluçando no altar que ocupava só como feliz testemunha. Limpo o suor da testa, ajeito a gravata prata e poderia continuar, mas em termos de esquecimento, há outro foco — lá pelas tantas, minha avó sobe ao altar.

Vamos lá: tenho uma avó que tem uma séria doença degenerativa no cérebro, e isso a faz esquecer-se de tudo e todos depois de certo tempo, permitindo-lhe uma cara amistosa, dócil, confusa e um constante ar de admiração. Estamos sempre a nos perguntar se ela realmente compreende o que se passa. Talvez finja entusiasmo para que paremos de dar atenção ao fato de que ela de fato não pode estar totalmente ciente daquilo que a cerca.

No conjunto da pessoa — com seu tailleur cor-de-rosa, cabelos crespos e simpáticos óculos redondos —, vi uma adorável mulher no limiar do esquecimento.  Alguém que assentia alegre e cordata a cada afirmação entusiasmada do padre eloquente, mas que me dava ao mesmo tempo inexplicavelmente uma impressão triste. Eu provavelmente estava fortemente influenciado por saber qual é sua real condição médica, mas não pude conter um soluço menos contido quando a vi subindo os degraus que levavam até os noivos.

Por alguns segundos no altar, lugar e hora bastante improváveis para tal, vi-me diante de uma série de recordações de quando meus primos, meus irmãos e eu éramos criança e corríamos pelo quintal dela. Nesse tempo, ela costumava fazer pão de queijo para nós, cujo sabor e textura sempre permanecerão irreproduzíveis. Talvez já tivesse tido a sorte de provar algum pão de queijo com cheiro não muito diferente, mas o gosto nunca será tão bem misturado com a memória do cheiro dos limões e do galinheiro abandonado no quintal. Pensando bem, não sei se meu paladar saberia distingui-lo se o estivesse provando novamente.

O pão de queijo, é claro, é apenas um exemplo. Ninguém choraria porque sente tanta falta de uma ou outra iguaria específica. Mas lamentei que minha avó — e sua alma, arrisco-me a dizer  —  estavam apenas em parte presentes. O resto fora já outrora soprado pra longe.

Meu ponto: acho que imaginar uma vida inventada para ela não vai ser o suficiente depois que cair no infinito abismo do cérebro plenamente degenerado. Lamentarei infindavelmente, mas enquanto não houver alguém que se disponha a biografar a sua vida por completo e faça com que choremos de nostalgia (e não só saudade), vou viver atormentado por ter conhecido só uma lembrança viva e já borrada. Sua voz trêmula vai desaparecer, por nunca tê-la gravado, e seu quieto mundinho interno conhecerá a extinção, por não o ter transcrito. Conheço-a, pelo jeito, muito menos que deveria, mas agora teremos cada vez menos de si para contar ao mundo.

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Viver, arrisco dizer, é estar imerso em um fluxo de memórias, servindo a nossas vidas como narrativas paralelas. Aqui, onde somente a introversão vê prazer, os fantasmas surgidos do assombro da transitoriedade são terríveis e assustadores vultos. As narrativas paralelas de outrora são lembretes sérios e impassíveis de que possivelmente as partidas futuras serão a tônica constante de tudo o mais que sobrevier. Se o desapego, como os vultos espreitando nos cantos no aguardo de um passo desatento, ousar estar certo, dar-me-ei por vencido pelas futuras tentativas de fincar raízes nas pretensas veredas oferecidas pela minha fácil e vã vida. A leveza com que o tempo passa é, como bem dito entre Joinville e Blumenau, tanto nossa tragédia quanto nossa esperança. 

nunca me esqueço:
http://mundoderascunhos.blogspot.com.br/2012/10/retoricas-sobre-esquecimentos.html

Esquecer-se: felizes vultos (pt. 2)


Em uma perspectiva mais deslumbrada, por outro lado, há o puro bliss extasiante de acordar com a cama tomada pelo súbito ar perfumado, pelo corpo quente e o único sorriso que eu consigo aceitar como belo e único. Sobre as longas mechas castanhas que adornam tanto minha incrédula realidade, paira o inconfundível motivo para abandonar qualquer pensamento que faça qualquer referência de longe à pedra de Sísifo. É visível como a assustadora perspectiva de assistir desmoronar o produto de semanas, meses e até anos de trabalho pode parecer apenas distração nesse tipo de momento. 

O karma indiano, as histórias infindáveis que serão sequer incluídas nos anais de qualquer registro, os tristes parentes e fantasmas que levarão consigo as biografias impublicadas, o gosto de pães de queijo inauditos: todos os itens dessa lista efêmera e volátil são os fractais infinitos de explicações incompreensíveis (cujos desdobramentos jamais cessam), resultando em uma única conclusão, demonstrável somente pelo afã do momento descrito agora: quando a luz batia pela janela em uma pequena fresta, na perfeita temperatura de novembro às 10h30, e a expiração brusca e barulhenta do labrador no andar de baixo são o único (e praticamente imperceptível) ruído, abri os olhos e fui recebido com o ‘bom dia’ mais doce que já pude ouvir. Meu corpo por completo ainda estava sedado pelo sono confortável do colchão de casal macio e pelo ar gelado do quarto. Despertei aos poucos, perguntando-me se podia aceitar aquilo sem remorso de todas as conversas tidas durante os dias úteis, nos bares, nos bancos da faculdade, e oferecidas por todas as inadiáveis e terríveis dificuldades alheias.

Ainda assim, confortei-me em meu mais sincero sorriso, e de olhos fechados, com todas as perspectivas de tempo convenientemente afastadas, citando um grande amigo, percebi: tem gente que vive uma vida inteira e não sente isso que a gente está sentindo. 

Não há medo do futuro que consiga persistir incólume. 

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nunca me esqueço: 
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sexta-feira, 5 de outubro de 2012

"I'm not ready for the grave yet", de B. Fleischmann



"I'm not ready for the grave yet",
said future, and had a cigarette, 
because my parents and grandparents
are still looking at needles... right?

"I'm not ready for the grave yet",
said the color, 
even if black and white are 
to start the painting of the world.

"I'm not ready for the grave yet",
said human, 
even if my enemy, the choke,
tries to hold me in the cellar. 

"I'm not ready for the grave yet",
said the song of hope, 
even if I'm tired 
of carrying my brothers and sisters.

"I'm not ready for the grave yet",
said the human race, 
as long as I keep my killing, 
I'm alive.

"I'm not ready for the grave yet",
said self-pity, 
and had another 
full glass.


"I'm not ready for the grave yet",
said greed.
(I am betting so well
I hope I won't burst 
like the 'dot com' bubble!)

"I'm not ready for the grave yet",
said the song of hope, 
and was downloaded 
by the 99% of the true fans.

"I'm not ready for the grave yet",
said the books, 
letters and papers, 
impatient like people's anger;

"I'm not ready for the grave yet",
said human, between the stories;

"I'm not ready for the grave yet",
said crisis, 
because there are new ideas
that could harm me


"I'm not ready for the grave yet",
said history, 
I'm alive, everyday!

"I'm not ready for the grave yet",
said history, 
I'm alive, everyday!

"I'm not ready for the grave yet",
said history, 
I'm alive, everyday!

"I'm not ready for the grave yet",
said history, 
I'm alive, everyday!


"I'm not ready for the grave yet",
said hope (that's the spirit!)
— and it was blowing in the wind. 

domingo, 26 de agosto de 2012

quarta-feira à tarde


Uma fanfarra está marchando e batendo furiosamente seus tambores, caixas e bumbos por cada veia e artéria pulsando meu sangue. Sou a sublime epítome de toda a existência humana porque quero morrer agora. Preciso morrer agora: nada do que pode vir depois pode ser melhor do que o incansável verve que grita em minha cabeça, torcendo os tendões de meus braços e convocando minha íris a buscar o reflexo azul do céu catarinense.

Vendo a minha alma para nunca mais perder a epifania deste minuto, o cheiro de café, o perfume doce, o sorriso sobre a barba batida na mesa ao lado, as cicatrizes, as teclas de marfim gasto no piano de cauda, as batidas do relógio em movimento — cada segundo é sagrado — e as flores amarelas do Ipê, já no chão: quero dissolver-me na hipérbole inquieta de viver. 

Frisar seu cabelo com a mão, os pontos de exclamação, os corais eruditos, a inexplicável risada despida, os corpos nus e cada arranhão, minha pálpebra inferior palpitando, a êxtase insone, todos os cenários já habitados em sonhos, as cores distorcidas, o universo e o seu quintal: estou tremendo de expectativa pelo futuro. 

Sou a definição ambulante da prosa inspirada pela vontade insaciada. Minhas pernas não se assentam, as solas dos meus sapatos estão furadas, as minhas pulseiras coloridas estão ficando gastas, e as marcas na parede são a alma da casa abandonada que há na rua que leva até o parque. O cheiro da grama cortada, os pássaros migrando e os patos na lagoa artifical, o vento quente da meia estação, a minha inspiração. O pedido eminente para que não, não vá embora; a brisa abafada que vem lá de fora, a memória da tempestade e do trovão, a água gelada, as metáforas intangíveis para sensações concretas, a expectiva mesclada de medo e delírio, a taquicardia, a verdade, os ofegantes corações, a saudade, o sentido figurado dos tufões, a idade, o canto entoado por milhões. A liberdade, a crença de igualdade, esperança e as transições; os acordes maiores, a vida resumida em paixões. 


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Hoy llamé a casa abandonada, 
tiempo que pasa crea inestabilidad:

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Paulatinamente


Lembro-me bem das aulas da Prof.ª Karen¹, especialmente quando chegamos ao ponto em que ela nos dividiu para ler “Vigiar e Punir”. Nossa tarefa era entender o “panóptico”, modelo de sistema carcerário de penitenciárias circulares, com uma alta torre de observação construída no centro que cria aos encarcerados isolados a constante sensação de estarem sendo observados. Frisa-se que ser observado constantemente implicaria necessariamente em uma punição imediata em caso de mau comportamento (algo substancialmente eficaz em termos de controle de grupos).

Por certo há aí toda uma discussão sobre sistemas penais ou carcerários, mas foi outra coisa que me deixou pensando por mais tempo. Pareceu-me, quando primeiro começamos a debater o porquê dessas idéias, que esse modelo é baseado exatamente em algo muito mais amplo. Afinal, posso supor sem maiores problemas que vigilância interminável é exatamente todo o ponto de qualquer mecanismo de convivência social, porque passar pelo crivo de todos é exatamente aquilo que define até aonde vai nossa moral e sua aplicação prática. Anda-se nu dentro de casa só com as persianas abaixadas. Em qualquer contexto, o debate em liberdades individuais começa exatamente no momento em que elas deixam de ser individuais e são debatidas — no gabinete da enésima vara, ou no meu sofá no sábado à noite.

Nada novo nisso tudo. Mas aí continuam alguns problemas, já que o papel de frear ou liberar certos impulsos cabe ao abstrato poder estatal. E uma palavra que certamente vem à cabeça quando alguém fala em, digamos, governos autoritários e ditaduras é a questão da censura. Há sempre só um lado da moeda, estampado com a cara da Rainha de Copas, porque não se aceita algo contra a vontade já sólida e decidida do status quo. Quando não se corta a cabeça alheia ou quebra-se as pernas, reduzem as opiniões contrárias às dezenas (e está aí a Bill 78 em Montreal que, tão atual, não me deixa mentir).

E aí chegamos no ponto que eu pretendia: o poder de calar ou deixar falar, mesmo em nível de decisões estatais, só pode derivar de uma grande vaidade individual de não se aceitar aquilo que pouco a pouco — paulatinamente — foge das expectativas. Sempre há quem preferirá suprimir, omitir e excluir. Os outros poderão sempre fugir em exílio, rumo à paulicéia.

O que resta disso é que os grupos são proporcionais, assim como as suas respectivas bobagens e censuras. As tolas concepções de falta de caráter, os tristes debates acerca dos erros dos outros — quem pensamos que somos?! —, e as cabeças cortadas (em metáfora ou não); todas as falhas de viver em grupo ecoam. Nossos momentos de ébria felicidade comemoradas na páscoa, nos feriados nacionais e durante as férias são pesados com receio.

E, ainda que seja questionável e exagerado o pragmatismo individualista dos ermitões, decepciono-me com decisões democráticas em grupo. Não há voto vencido: cortem-na a cabeça. Condenem-na ao ostracismo. Façam com que fique quieta. Simplesmente a evitem, e que viva para sempre a vergonha de atitudes daquela que — pasmem! — fez algo do qual discordaram.

Mas sem pânico: com alguma sorte, a verdadeira necessidade de se fazer ouvir frente a terríveis atos institucionais nunca mais será realidade por aqui. Felizmente, só conheceremos essa censura tola que queima sob nossas pequenas panelinhas.

Enquanto isso, diante dessa pequenice toda, o rude pedido de silêncio de agora será indiferença depois. Se estamos mesmo em um panóptico, a prisão é a torre de observação. Toda canção de liberdade vem do cárcere. 


Por fim, se há alguma lágrima ou decepção, é porque se lamenta a falta de bom-senso da Rainha de Copas, tão desvairada.

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(1)  — “Se estiverem felizes, fiquem felizes; se estiverem tristes, fiquem tristes! Vivam o momento!”

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quinta-feira, 14 de junho de 2012

Pasteur pipettes


O mundo é um conta-gotas colossal de histórias que morrerão junto com seus protagonistas: há um parágrafo em cada esquina, sobre cada lençol manchado, por trás de todos os suéteres rasgados e inclusive à frente das mesas de madeira de demolição. Nossas reclamações aborrecidas revelam aparentes confissão de almas vazias, mas há na verdade menos almas vazias que tatuagens no corpo do conservador recluso — e por isso somos todos palhaços em um romance russo que não vai ser lido, porque o hábito de ler perdeu-se com o tempo. Tampouco há tempo para perder com traduções, eufemismos e parêntesis, e infelizmente não haverá ninguém para deixar notas detalhadas sobre os carecas enfurecidos que estouram garrafas de Heineken nas cabeças uns dos outros em bares sujos por aí, ainda que tenham passado suas vidas lendo extensos tratados de sociologia. Ansiamos pelas autobiografias que surgirão para contar fatos notórios e sabidos, mas teremos ao final uma decepção de 200 páginas e 50 capítulos, cuja edição mais caprichada nunca chegará a prateleira central da livraria catarinense e talvez venderá menos que aquela compilação de contos de um blumenauense (à venda sobre a mesa de centro no consulado). 

Nossa cabeça é um infinito conta-gotas de histórias que morrerão conosco: enquanto nos entretemos até a morte, acumula-se o número de paginas que você poderia estar escrevendo (e eu, lendo). Devíamos estar registrando em meu teclado ergométrico cada passo daquele meu conhecido que se parece com um lêmure  ao invés de perder tempo fazendo mais café. Devíamos estar construindo monumentais obras rimadas para contemplar quando nossa autoestima estiver baixa, e devíamos estar aprendendo latim — ah, a vida é tão sem propósito quando gastamos fios de cabelo pensando na morte. Vamos lá, é hora de tirar mais fotos para entreter nossos netos entediados: quem sabe um dia eles se deparem com álbuns de fotos perdidos em um álbum no canto da casa.

São também conta-gotas as impressões de mundo que ouvi de meus melhores amigos: quero conhecer mais uma vez todas as histórias e repassar em minha mente longos monólogos sobre o sol da meia noite. Vou aprender a falar somente frases de efeito com entonação engraçada. Escreverei um longo diário fictício que se encerrará em uma praça grande e vermelha onde olhares são transcritos em alfabeto cirílico, e contemplarei frequentemente em devaneios a estátua do Almirante Nelson no topo de sua coluna, gritando a vitória rimada em gíria cockney. Vou escrever sobre Montreal sem nunca ter ido para o Canadá. Vou vestir um terno e atear fogo em mim. E ao final do dia, ao olhar-me no espelho, vou cruzar os dedos, esperando que dure para sempre o ar que enche meus pulmões.

Todas as frases são — veja só — conta-gotas pingando seus pensamentos de pouco em pouco. Assim, longos diálogos fazem menos sentido que esses frases,  e por isso o trabalho é a melhor distração do que um blog. Mas nada disso é suficiente. Então, ainda que eu queira passar meus dias escrevendo metáforas ruins e longas frases que não fazem sentido, prefiro reduzir-me ao pragmático.


Em outras palavras, é minha deixa para parar de escrever besteira, e amanhã mesmo irei ao correio enviar-te um conta-gotas junto de um bilhete (eis aí, enfim, algo que valha a pena ser escrito). E antes que me esqueça: antes de enviar o conta-gotas de volta, prometa enchê-lo até a metade com seu perfume, para espalhar pela casa em tua ausência. 

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Where droppers are poetry,
where texts make sense:
http://mundoderascunhos.blogspot.com.br/2012/06/acucar-ou-adocante.html